O assunto do telefonema de Natália era claro:
– Isabel, explica-me lá o que preciso fazer para ir para um lar.
– Tu? Para que precisas saber já disso, Natália? Estás tão bem! Bem sei que tens 82 anos…
– Pois, mas esta decisão já eu tomei. Só não sei como fazê-lo.
Foi assim que Isabel ficou a conhecer facetas escondidas da vida da sua amiga.
Depois de tantos anos a conviverem, Isabel não queria acreditar que Natália não tinha uma conta poupança. Que descuidada, nem parecia de Natália, sempre tão organizada e cuidadosa com todos!
Como foi capaz de esbanjar toda a sua reforma de enfermeira? Sempre a considerara esclarecida, poupada…
Mas, quando Natália abriu o seu bloco de notas onde tinha anotadas as datas de compromissos inadiáveis, Isabel entendeu. Lá estavam em destaque: pagar mensalidade de Vitor; pagar conta da barraca de Mariazinha; pagamento da casa de Joana e André.
Vitor era um estudante universitário que só conseguia sê-lo porque Natália assegurava o pagamento da renda
e das propinas.
Mariazinha, era uma amiga de infância de Natália que, não tendo ninguém de família, passaria sérias dificuldades sem apoio. Para compensar essas dificuldades, Natália assegurava a conta das compras da amiga.
Joana e André eram um casal desempregado, que um dia lhe bateu à porta a saber se tinha casa para arrendar.
Como sempre, atenta e pronta a ser contributo na solução do problema que pudesse ser-lhe apresentado, percebendo a dificuldade que o casal estava a viver, e não tendo casa para arrendar, assegurou de imediato um apoio no pagamento da renda, até ser necessário.
E estes eram os compromissos do momento. Muitos outros tinha assumido ao longo da vida, que faziam parte de outras agendas, de outros blocos de notas, ou nem isso, mas faziam parte do enriquecimento de uma pessoa liberta, risonha, sempre de braços abertos para quem precisava de uma ajuda concreta, sem ter de dar justificações.
Esta forma de ser, fazia parte da vida de Natália: na sua vida de enfermeira, dedicara-se por inteiro a cuidar. Essa era de facto a sua grande vocação. Por isso, quando se reformou, ofereceu-se como enfermeira voluntária num lar de idosos, onde ficou 10 anos a prestar serviço continuado.
Agora, tem consciência que necessita de ajuda. Já sente receio de ficar sozinha em casa, atendendo aos sinais de saúde que vai identificando.
Mas, ao considerar a integração em lar, ainda perspetiva poder colaborar no apoio a outras pessoas aí residentes. Não sabe bem em quê, mas inativa não ficará certamente!
É esta vida cheia que preenche os 82 anos de Natália, e que a deixam agora sem meios financeiros para pagar um lar.
Isabel sabe que Natália não deixará de assumir os apoios que oferece, pondo em risco a sua integração no lar que deseja.
Resta-lhe a ela fazer por Natália aquilo que ela faz e fez durante toda a vida: acolher, apoiar e cuidar.
Natália foi recebida num lar para
pessoas idosas. Para a sua admissão, a sua história valeu mais do que a sua conta bancária, e a sua atitude motivada e agradecida, é fonte de aprendizagem e de inspiração para os que partilham a sua nova casa.
Encontrou um lugar onde pode ser cuidada. Mas, a riqueza amorosa construída ao longo da vida, partilhando tudo o que tinha, sabia e conseguia, permite-lhe agora continuar a acolher, a agradecer, a livremente amar e cuidar da harmonia que sabe cultivar em seu redor.
Natália ganhou uma nova família, e esta sua família, ganhou uma nova vitalidade e aprendizagem sobre a verdadeira riqueza a acumular.








