Se o Padre António Vieira, que viveu entre Portugal e o Brasil, no século XVII, é considerado um gigante da língua portuguesa, também Sor Juana Inés de la Cruz, nascida no vice-reino da Nova Espanha, o atual México, é justamente considerada um grande nome das letras espanholas, além de “a primeira feminista das Américas”, como a classificou já há um século uma hispanista dos Estados Unidos da América, Dorothy Schons. Entre Vieira, contemporâneo mas mais velho, e Sor Juana, chegou mesmo a haver uma polémica teológica, apesar de nunca se terem encontrado.
Octavio Paz, diplomata mexicano que ganhou o Nobel da Literatura, dedicou à freira um magnífico ensaio, que está traduzido para português. Nesse ‘Sor Juana Inés de la Cruz ou As Armadilhas da Fé’, o ensaísta revela que a figura e obra da freira intelectual ganhou novo protagonismo a partir da publicação em 1910 de um livro de Amado Nerva e que ele próprio leu ainda jovem pela primeira vez os poemas de Sor Juana por influência de um outro poeta, Jorge Cuesta. Voltou, conta Paz, a relê-la em 1950, quando já era diplomata em França, pois uma revista mexicana queria assinalar os 300 anos do nascimento da religiosa (pensava-se ter nascido em 1651, agora dá-se como mais provável ter sido em 1648). E foi assim que nasceu um pequeno ensaio que viria, anos depois, a ser a base do incontornável ‘Sor Juana Inés de la Cruz ou As Armadilhas da Fé’.
Confesso que conhecia o nome, mas pouco ou nada sabia da grande figura das letras mexicanas do século XVII.
Até um pequeno concerto na residência do embaixador mexicano em Lisboa, Bruno Figueroa, em que ouvi Magos Herrera cantar uma ária de uma ópera por ela própria criada e inspirada em Sor Juana. O título da ária era ‘El mundo se ilumina’ e faz parte da ópera ‘Primero sueño’, nome retirado de um poema célebre.
A cantora mexicana, mais conhecida pela sua faceta de jazzista, explicou-me depois ser “a obra-prima de Sor Juana, um poema fantástico, muito complexo. O único que ela escreveu por vontade própria, que não foi comissionado. É um poema muito verdadeiro, muito sincero, e trata da ascensão da alma. E nessa ascensão piramidal, encontra-se com Deus, com o Absoluto, e a alma dá-se conta que não pode compreender, cai e termina no intento de subir de novo”.
A conversa foi no Martinho da Arcada, café lisboeta onde Fernando Pessoa ia com frequência. E naquele
ambiente cheio de memórias literárias, que mais tarde José Saramago também frequentou, soube que Sor Juana fez leituras do Padre António Vieira e foi amiga de uma portuguesa, a duquesa de Aveiro, Maria de Guadalupe de Lencastre, outra mulher letrada, que as vicissitudes das Guerras da Restauração fizeram mudar-se para Espanha.
Sor Juana morreu em 1695. Tinha menos de 50 anos, quaisquer que sejam as hipóteses para a data do seu nascimento. Foi freira no convento de São Jerónimo, que fica no centro histórico da Cidade do México, perto da Praça da Constituição, também conhecida como Zócalo. O edifício é hoje uma universidade, mas os tranquilos claustros oferecem um ambiente afastado do caos urbano das proximidades, basta pensar que a capital mexicana tem mais de 20 milhões de habitantes. E uma sala ampla serve de museu dedicado a Sor Juana, estando incrustrada numa das paredes uma pequena urna com os seus restos mortais.
O local é assinalado por uma bandeira com as cores mexicanas, prova da importância que o país dá a esta sua filha, que morreu mais de um século antes da proclamação da independência em 1810. No vidro que protege a urna pode ler-se o verso “triunfante quiero ver al que me mata/y mato a quien me quiere ver triunfante”. Na sala, estão alguns pianos, mas centralmente surge uma secretária onde um modelo vestido à época faz de religiosa e indica que seria ali que Sor Juana escrevia. Há também várias pinturas a retratar a poetisa, assim como umas vitrinas onde se expõem as notas de pesos com a sua efígie ao longo dos anos e outras que mostram livros a ela dedicados, como a edição mexicana do livro de Octavio Paz, que além de a biografar tenta explicá-la no contexto da época, ela que viveu num vice-reino de Nova Espanha mergulhado então no esplendor da época do Barroco.
Há várias surpresas na biografia de Sor Juana, como ser filha ilegítima, de um pai vindo de Espanha com uma ‘criolla’, ou a mãe ser analfabeta, mesmo que mostrasse sempre grande inteligência e dotes de gestora dos bens que herdou da família. Nascida em Nepantla, Juana de Asbaje, aquela que viria a ser chamada de “a décima musa”, cresceu em contacto com o campesinato que trabalhava para a família e aprendeu náhuatl, uma língua indígena. Curiosa desde muito pequena, aprendeu a ler com uma irmã mais velha às escondidas da mãe e estava fascinada com os livros que pertenciam ao avô materno.
A jovem Juana foi viver com tios que moravam na capital do vice-reino e depressa deu nas vistas pela sua cultura. Não tardou muito era uma figura da corte. O vice-rei e sobretudo a vice-rainha afeiçoaram-se à jovem prodígio, incentivando a sua escrita. Essa proteção manteve-se quando vieram novos vice-reis. A dado momento, e frustrada por não poder estudar na universidade por ser mulher, optou por uma vida religiosa. Terá tido, também se especula, alguns amores não correspondidos, e conta-se que tinha grande beleza.
Na Ordem de São Jerónimo conseguiu manter uma vida intelectual, e certo conforto físico, mesmo acumulando tensões com figuras da hierarquia religiosa. A dada altura entra mesmo em disputa teológica com o Padre António Vieira. Na ‘Carta Atenagórica’, de 1690, critica o Sermão do Mandato, escrito décadas antes pelo jesuíta português, texto ao qual terá tido acesso tardio.
Octavio Paz dá relevo no seu ensaio a essa polémica teológica, pois oferece pistas sobre a personalidade de Sor Juana, muito crítica, mesmo se escreveu a pedido do bispo de Puebla e supostamente o texto era para não ser publicado. Seguir-se-ão outras polémicas com figuras da Igreja mexicana, que tiveram consequências para Sor Juana. Uma delas foi ter-se desfeito um dia da sua biblioteca pessoal, que teria entre 1500 e 4000 livros. Não havia sinal desses livros na sala museu que visitei no Convento de São Jerónimo.
Também nessa época é publicada em 1689 uma obra sua em Espanha, com o título ‘Inundación castálida’, que causou forte impressão deste lado do Atlântico, mesmo que seja dado adquirido que Sor Juana já era figura admirada tanto no vice-reino de Nova Espanha como na Península Ibérica. Freiras portuguesas eram leitoras da mexicana, sabe-se hoje, provavelmente via a duquesa de Aveiro.
Sor Juana é um nome e um rosto conhecido dos mexicanos, até porque a nota de 100 pesos, das mais usadas no dia a dia, ostenta a sua imagem. Contudo, a sua dimensão múltipla só será verdadeiramente valorizada por quem a estudar. Magos Herrera fê-lo: “Sor Juana Inés de la Cruz foi uma mulher do século XVII da Nova Espanha. Ela tinha muita vontade de conhecimento, e, para poder perseguir essa paixão pelo conhecimento, decidiu ser freira em vez de se casar. Também porque a circunstância dela não era muito favorável ao casamento. E, sendo já freira, ela teve muito apoio da Coroa Espanhola no México, e, graças a essa relação, ela foi publicada. Era incrivelmente genial, multifacetada, porque ela era escritora, poetisa, musicista. Perseguia o conhecimento em geral”.
Como diz Octavio Paz, Sor Juana acabou a dada altura por ser silenciada. Morreu por culpa de uma doença ainda relativamente jovem, mas nos últimos anos de vida já tinha sido condenada ao silêncio por prelados, homens representativos daquele século XVII, que consideravam soberba e rebeldia as suas ideias sobre a educação das mulheres. São sempre muito lembrados os versos iniciais do poema ‘Hombres necios que acusáis’, que passo a citar no original espanhol: “Hombres necios que acusáis./ A la mujer sin razón,/sin ver que sois la ocasión/de lo mismo que culpáis./si con ansia sin igual/solicitáis su desdén,/¿por qué queréis que obren bien/si las incitáis al mal?”
Texto: Leonídio Paulo Ferreira, jornalista do DN
