Em todos os lugares, há casas à beira da morte. E lojas que teimam em manter as portas (entre)abertas, à espera de um cumprimento, à espera de um olhar, à espera de um cliente. São lugares de memórias velhas, daquelas que o tempo há de apagar, quando já não houver tradutores de saudades.
Na cidade, na nossa, há lugares assim. Não-lugares, talvez. Espaços que, aos poucos, se vão apagando, na lentidão dos dias. De vez em quando, uma janela suicida interrompe o caminho, uma porta desiste de se cumprir e dá acesso àquilo que, um dia, foi a casa de alguém, a loja de alguém, o sonho de alguém.
Nos incêndios, algumas dessas casas morreram de vez. Nessa altura, olhamos para elas e tivemos pena. Eram lindas, as casas. Já tiveram gente, as casas. Já tiveram vida, as casas. Depois, passou. A vida empurra os nossos olhos para outros lugares. [E isso é bom. É de gente. É de futuro].
Os nossos olhos apressados de outubro – que é um mês de muitas pressas – já deixaram de ver o que, nas ruas dos nossos lugares, permanece teimosamente de pé. Talvez seja melhor assim, para as casas moribundas da cidade. Ninguém as vê cair. Ninguém as vê morrer. É como se não estivessem ali. Como se fossem invisíveis. Ou transparentes. Ou nada. Talvez não lhes doa tanto a nossa falta de olhar.
Em todos os lugares, há casas assim. Moribundas. Incomodam-me, os lugares moribundos. Como me incomodam as coisas invisíveis. E as pessoas que, simplesmente, não se quer ver. É mais fácil não ver: as casas, as coisas, as pessoas que nos lembram que, um dia, seremos invisíveis também.
Doí-me a morte dos lugares. E das memórias. E das histórias que vão ficar soterradas debaixo dos escombros do esquecimento. Dói-me a invisibilidade. E, enquanto as minhas palavras souberem, hão de contar:
– Aqui, havia uma casa. Dentro da casa, havia gente. Dentro da gente, havia vida…








