Abílio Lisboa, consultor e ex-padre

Dizem os textos bíblicos que, depois de nos ter falado de muitos modos, com palavras e obras, Deus, Nosso Senhor, decidiu falar-nos pelo seu Filho. Talvez estas palavras nos descansem. Mas são, também, fonte do nosso – ou deveriam ser – desassossego. Esse mesmo Deus que viveu entre nós, nesse lugar único e nosso de referência, deixou-nos um dia, mostrando que não há limites para a capacidade de entrega. É a proclamação maior de um Deus que nos quer continuar a convidar a sermos sujeitos dessa descoberta que a existência encerra: os dias que conhecemos.

Talvez, nestes dias em que a depressão Kristin chegou até nós e virou uma parte do país ao contrário – e, com ela, tantas vidas –, possamos perceber que há aqui uma provocação que podemos analisar, explicar, aceitar. Não entrando nesta lógica que seja permitida ou mandada por Deus, mas numa consciência de que, ao acontecer, nos permitiu – e permite – olharmo-nos uns aos outros na nossa fragilidade e fazer, daquilo que temos para dar, a nossa maior fortaleza. E, em tempos de Páscoa, podemos perceber que, afinal, ainda há muito que está ao nosso alcance. Foram tempos de interajuda, de olhar para a própria desgraça e para a desgraça alheia. Foram tempos de voltar – ou, para alguns, de começar – a falar com os vizinhos e de, sem esperar nada em troca, oferecer ajuda para uma reconstrução possível. De cristãos e de Kristinanos!

Por estes dias, em que as coisas se vão acalmando, desejo que esta “Kristiniaficação” da realidade nos recorde que ainda há muito que podemos fazer, que ainda há muito a esperar, inspirados na figura d’Aquele a quem chamamos de Deus e que, ao entregar a Sua vida, não deixou que essa entrega ficasse só ali, mas que continuasse a inspirar-nos – a nós e a tantos outros que pouco ou nada d’Ele querem saber. Sim, nós somos fruto dessa entrega, inspirados naquele bem maior que temos: a certeza de termos um Deus que olha para nós na expetativa do nosso melhor. E na expetativa do melhor que Ele próprio deseja um dia encontrar quando, enfim, nos encontrarmos face a face. Mas o poder de fazer o bem não é só nosso; pelos vistos, anda por aí muito – e bem – distribuído. Boa Páscoa e bons encontros com o bem!

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