Inúmeros representantes da Igreja Católica na Nigéria estão a pedir ao governo que mobilize mais agentes militares e policiais para conter o derramamento de sangue e a criminalidade que assola grande parte do país, na sequência de uma onda de ataques que, só nos últimos três meses, já fez centenas de mortos e sequestros nas regiões norte e centro.

O incidente mais recente envolveu um catequista, a sua esposa, que está grávida, e outras 30 pessoas, todos eles raptados no passado dia 10 de fevereiro, em Kadarko, no estado de Kaduna (centro-norte da Nigéria). O catequista, afirma a agência Fides, trabalhava na paróquia local de São José. O sequestro em massa ocorreu durante a madrugada, quando um grupo de homens armados invadiu a zona.

Exatamente uma semana antes, a 3 de fevereiro, mais de 160 pessoas haviam sido massacradas em Woro, no estado de Kwara, no Cinturão Médio da Nigéria. De acordo com relatos publicados na imprensa, citados pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, as vítimas eram na sua maioria muçulmanos e foram mortos por militantes jihadistas por se terem recusado a abraçar a versão extremista do Islão que estes advogam. Este incidente seguiu-se a outros, também violentos, e ocorridos no final de 2025 e no início deste ano [ver 7Margens].

O Secretariado Católico da Nigéria (CSN), que é o braço administrativo e executivo da Conferência Episcopal Católica da Nigéria, publicou uma declaração, em que condena a “onda implacável de assassinatos e sequestros que continuam a assolar” o país. “A recorrente carnificina tornou-se uma mancha na consciência da nossa nação. Como se pode justificar que, fora de uma situação de guerra, mais de 160 civis inocentes tenham sido massacrados num ataque coordenado em Woro, no estado de Kwara? Como podemos explicar os repetidos assassinatos e sequestros em Agwara e Tungan Gero, no estado de Níger, o extermínio de comunidades agrícolas inteiras em Katsina e Kaduna e a violência contínua em Borno? Isto não é ‘instabilidade’, mas um massacre permitido pelo silêncio e uma traição ao direito de todos os nigerianos de viverem em paz”, pode ler-se no documento, que foi enviado à Fundação AIS Internacional.

O CSN faz várias exigências ao Governo, nomeadamente que intensifique “os esforços na redistribuição das forças de segurança (…) para as verdadeiras linhas da frente, onde os cidadãos estão sitiados” e que consiga “identificar, expor e processar os patrocinadores e facilitadores do terror, independentemente do seu estatuto político, religioso ou social”.

No documento exige-se ainda que as autoridades “prendam e punam todos os autores de violência” e “prestem ajuda urgente, cuidados psicossociais e indemnização às vítimas e suas famílias, enquanto protegem e reconstroem as comunidades destruídas para restaurar a esperança e a dignidade dos naturais da terra”.

As províncias eclesiásticas de Kaduna, Abuja e Jos, que incluem mais de 20 dioceses no norte da Nigéria, também emitiram um apelo conjunto nos últimos dias, afirmando que “os incidentes persistentes de sequestro para obtenção de resgate, assassinatos de cidadãos inocentes, invasão e ocupação de comunidades agrícolas e deslocamento generalizado criaram medo, trauma e profunda incerteza entre o nosso povo”.

“As terras agrícolas, destinadas a sustentar a vida, tornaram-se cada vez mais locais de perigo, obrigando muitos agricultores a abandonar os seus meios de subsistência e agravando assim a fome e a pobreza”, refere-se no documento, que conclui: “Uma sociedade não pode prosperar onde a vida humana é continuamente ameaçada. Por isso, apelamos a todos os níveis do Governo e às agências de segurança para que intensifiquem os esforços no sentido de proteger vidas e propriedades, pois a paz só pode perdurar onde a justiça é respeitada.”

O bispo Bulus Yohanna, de Kontagora, cuja diocese cobre uma parte substancial do estado do Níger, fez também um apelo ao Governo, pedindo que instalasse uma base militar na região para garantir a segurança das populações. Na sua diocese, recorde-se, 320 pessoas foram sequestradas de uma escola católica em Papyri, em novembro do ano passado. Na declaração, o prelado apelou à criação de “uma base militar totalmente equipada (…) capaz de perseguir e neutralizar grupos armados sempre que estes saem dos seus esconderijos” e pediu ao Governo que “destine pessoal de segurança adequado, forneça os recursos necessários e trabalhe com as partes interessadas locais para restaurar a paz”.

Já o bispo de Sokoto, falando na terça-feira, dia 3, na apresentação da biografia do governador do estado de Adamawa, Ahmadu Fintiri, referiu que esta onda de violência não tem paralelo em mais nenhum outro país. “Não há nenhum outro país onde, na segunda-feira, morram 10 pessoas, na terça-feira 50, e na quarta-feira 100, e isto continua assim, semana após semana. Como pode um país avançar assim?”, questionou Matthew Kukah.

O prelado criticou ainda a forma como as notícias sobre os assassinatos e sequestros de pessoas têm vindo a ser divulgadas, com base no que referiu serem “critérios jornalísticos”, alertando que há o risco de este tipo de narrativas fazer aumentar a desconfiança entre comunidades e que esta questão deve ser abordada a nível político e institucional com a participação de líderes religiosos comunitários.

Texto redigido por 7Margens/AIS.

 

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