São pelo menos 185 os edifícios da Igreja Católica onde ocorreram “danos significativos” na sequência da tempestade Kristin e do mau tempo que se tem feito sentir nos últimos dias. Face à dimensão dos estragos, o Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja (SNBCI) criou uma bolsa de técnicos de conservação e restauro, arquitetos, sineiros, e outros, que se disponibilizaram para colaborar na recuperação de algum património. E a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) lançou uma campanha solidária para reparação de igrejas e centros paroquiais afetados.
Os serviços diocesanos, em diálogo com o SNBCI e o Património Cultural, I.P, têm estado a fazer o levantamento dos edifícios que sofreram danos. A diocese de Leiria-Fátima foi de longe a mais atingida, com muitos edifícios com telhados que desabaram e estruturas que ficaram profundamente comprometidas, mas também nas dioceses de Coimbra, Santarém, Lisboa, Castelo Branco, Évora e Beja há registo de danos no património religioso, adianta ao 7MARGENS a diretora do SNBCI, Fátima Eusébio.
“A continuidade do vento e da chuva nos últimos dias adensou a precariedade e a degradação do património afetado, sendo que muitos bens móveis foram retirados pelas comunidades para locais seguros e o património integrado, quando possível, foi protegido com plásticos e lonas. Também este recurso foi colocado em muitas das coberturas danificadas. Edifícios que antes desta calamidade já se encontravam em situação de vulnerabilidade têm agora a situação fortemente agravada”, detalhou a responsável.
Entre os casos mais graves, Fátima Eusébio destaca, em Leiria, o Santuário da Senhora da Encarnação, o Santuário do Senhor Jesus dos Milagres e a Catedral, assim como o Seminário de Cernache do Bonjardim, no distrito de Castelo Branco, e o Convento do Louriçal, em Pombal. “Edifícios que já estavam a precisar de intervenção urgente, com estas tempestades e a continuidade a chuva, têm agora a situação muito agravada, como a Igreja de Santa Catarina em Lisboa”, assinala ainda.
O Governo, entre as 14 medidas que anunciou, alocou 20 milhões de euros para a recuperação do património cultural, mas para Fátima Eusébio esta verba é “manifestamente insuficiente, pois há muito património não religioso que também está danificado e que necessita de intervenção urgente”.
Neste contexto, a criação da bolsa de técnicos voluntários tem sido uma resposta determinante. “Também o Fórum de Conservadores Restauradores se disponibilizou para a organização de Brigadas de Intervenção Rápida para a retirada e acondicionamento do património que se encontre em situação vulnerável”, adianta a diretora do SNBCI. “A todos os que nos contactaram o nosso muito obrigada… Face à dimensão da catástrofe todos os apoios e contributos são necessários e importantes”, acrescenta.
Devolver os locais de culto às comunidades
É o caso da campanha lançada pela Fundação AIS para recolha de donativos, que tem como principal propósito “ajudar na reconstrução de igrejas e capelas danificadas, devolvendo o mais depressa possível esses locais de culto às respectivas comunidades, para que estas possam voltar a ter condições de celebrar a sua fé”.
Com esta iniciativa solidária, a Fundação AIS procura também “dar esperança e conforto às populações que foram mais atingidas, mostrando que não estão sozinhas”, diz a diretora do secretariado nacional da instituição, Catarina Martins de Bettencourt.
“A Fundação AIS garante que cada donativo será diretamente aplicado na reconstrução das igrejas, particularmente no apoio à diocese de Leiria, a mais afetada pela tempestade Kristin. Com a sua ajuda, podemos colocar cada tijolo no seu lugar, reconstruir telhados e igrejas, restaurar a fé e devolver a esperança às nossas comunidades”, acrescenta a responsável da AIS em Portugal numa mensagem que está a ser enviada para casa dos benfeitores e amigos da instituição.
Todos os que quiserem colaborar com a Fundação AIS nesta campanha podem fazê-lo diretamente no site, por MBWay (918125574), ou pelo telefone (217544000).
Uma revista e um curso para olhar e comunicar melhor o património religioso
Um dos grandes objetivos do SNBCI tem sido “consolidar o entendimento da importância do património da Igreja para a Igreja, no âmbito da sua presença e diálogo com as comunidades de fiéis e com a sociedade em geral”, destaca Fátima Eusébio, que assumiu a direção do secretariado há dois anos.
Para atingir este objetivo, o organismo da Conferência Episcopal Portuguesa apostou, nos últimos meses, em duas iniciativas: o relançamento da Invenire, revista de bens culturais da Igreja nascida em 2010, e a organização de um curso de Museologia da Religião.
A boa recetividade de ambas as iniciativas mostra que o objetivo já está a ser alcançado. O curso arrancou na última semana com o número máximo de inscritos: 250. “Não esperávamos uma adesão tão grande, até porque a formação é circunscrita à componente religiosa. Contudo, verificámos que a temática suscitou interesse num público muito diversificado, que inclui não só os responsáveis diocesanos dos bens culturais e de museus da Igreja, sejam das catedrais, diocesanos ou paroquiais, mas também técnicos dos municípios, de museus do Estado e de associações, conservadores restauradores, técnicos de turismo, historiadores, estudantes, etc.”, partilha Fátima Eusébio.
Ao longo de quatro sessões, online, os formandos aprendem a olhar para os objetos religiosos em contexto de museu, a construir discursos expositivos, a programar a montagem de exposições e a desenvolver formas de comunicação com diferentes públicos. No final, decorrerá uma sessão presencial, num espaço museológico, que será observado em função dos conteúdos apresentados nas sessões anteriores. Esta sessão presencial terá três edições, que vão decorrer nos Tesouros de três catedrais, concretamente de Lisboa, de Évora e de Braga, adianta a diretora do SNBCI.
Brevemente, o organismo pretende iniciar outras formações online, nomeadamente nas áreas da conservação preventiva, cuja elevada importância os recentes acontecimentos também vieram demonstrar.
Quanto à revista Invenire, cujo segundo número desta nova série acaba de ficar disponível, veio “abrir espaço para a publicação de artigos de investigação e de divulgação das múltiplas temáticas relevantes no âmbito desta área específica”, sublinha Fátima Eusébio.
A revista pretende também promover boas práticas no que diz respeito ao património religioso em Portugal nomeadamente através de uma secção dedicada ao que se vai fazendo, nas diferentes dioceses do país, nas áreas da conservação e restauro, arquivos, museus e exposições temporárias.
Neste número dois, que será apresentado no próximo dia 20 de fevereiro em Aveiro e já pode ser adquirido online, o destaque vai para a última década na recuperação do património da diocese de Bragança-Miranda, mas também para aquele que é um património imaterial como as Romarias Quaresmais na ilha de São Miguel-Açores.
Cada número compreende várias secções temáticas, “em correspondência com os desafios que se colocam aos Bens Culturais da Igreja e com a definição de linhas de orientação que trazem à colação a importância do património grafado por Deus através dos homens para comunicar e anunciar a Sua proposta de salvação à humanidade”, explica Fátima Eusébio ao 7Margens.
E conclui: “Os bens culturais colocam a Igreja em comunhão com a sociedade, crentes e não crentes, porque a sua presença nas comunidades reforça o sentido de pertença e de identidade cultural”. É também por isso que é tão importante protegê-los e recuperá-los.
Texto redigido por Clara Raimundo/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.








