Celebração da missa junto de um dos centros de detenção de imigrantes nos Estados Unidos, em protesto contra a acção do ICE, polícia de fronteiras. Foto © Flickr/Paul Goyette, via U.S.Catholic

“A esperança é uma virtude ativa e, às vezes, o simples ato de participar na luta alimenta essa chama de esperança em nós.” Quem o declara é a irmã dominicana Christin Tomy, capelã universitária, em olhar retrospetivo sobre as manifestações em que tem estado envolvida para levar conforto aos imigrantes presos e maltratados num centro de detenção nos arredores de Chicago, nos Estados Unidos da América.

Por duas vezes, nos últimos meses, integrou pequenos grupos de católicos que procuravam levar a comunhão aos cristãos, encerrados pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândegas dos Estados Unidos, na sigla em inglês), a polícia dos imigrantes, no Broadview Center. Também por duas vezes esse intento recebeu uma resposta negativa, apesar de esse serviço estar assumido e oficialmente aceite desde há quase duas décadas. E Tomy não era ali uma desconhecida, dado que tinha como ministério entrar, às sextas-feiras, entre as quatro e as seis da manhã – horário que lhes foi imposto – naquelas instalações, não apenas para distribuir a eucaristia, mas também para escutar e dialogar com os detidos.

Por causa deste fechar de portas, dois advogados católicos ofereceram os seus serviços para colocar uma ação judicial contra o ICE e outra instituição de segurança, invocando a violação da liberdade religiosa – a mesma liberdade religiosa pela qual as autoridades dos EUA dizem zelar em outros países do planeta. Neste momento, aguarda-se do juiz a marcação da primeira audiência.

As atenções dos americanos e de muitos cidadãos do mundo têm estado, ultimamente, centradas na cidade de Minneapolis, no estado do Minnesota, mas, antes dele, no início do outono de 2025, a administração Trump fez seguir para Chicago centenas de agentes do ICE, os quais, após menos de duas semanas de caça ao imigrante, já tinham detido mais de 500 de pessoas, em grande medida sem antecedentes criminais nos Estados Unidos.

Um acontecimento que suscitou a urgência de agir registou-se logo em 12 de setembro, quando agentes do ICE prenderam, dispararam e mataram um imigrante, durante uma “operação stop”.

Um trabalho muito elucidativo que acaba de ser publicado pela publicação U.S. Catholic dá conta de como as comunidades católicas da área – como, de resto, de outras confissões, e até de dinâmicas interconfessionais – reagiram.

“Em resposta – conta a publicação – milhares de católicos reuniram-se para organizar celebrações litúrgicas nas proximidades do centro de detenção, celebrando “publicamente num local de sofrimento e violência infligidos pelo Estado”.

A primeira aconteceu logo a 11 de outubro, numa igreja de Melrose Park. Vestidos de t-shirts amarelas, os participantes, à roda de um milhar, organizaram uma procissão eucarística até Broadview. O texto do Magnificat de Maria – “Deus derrubou os poderosos dos seus tronos e elevou os humildes” – deu o mote, expresso quer na imagem da Virgem quer nas t-shirts.

A segunda celebração decorreu a 1 de novembro, festa de Todos os Santos, num parque de estacionamento frente à prisão. A eucaristia, em espanhol e inglês, foi presidida pelo bispo José María García-Maldonado e nela participaram cerca de duas mil pessoas. A concelebrar, estiveram, entre outros, 25 padres missionários claretianos, uma congregação que se dedica ao trabalho pastoral e social com imigrantes desde 1902.

Nas duas ocasiões, em que procurou cumprir todas as normas para eventos públicos, tentou-se que um pequeno grupo entrasse no estabelecimento prisional, o que foi negado, ainda que os participantes se tenham feito ouvir com as suas orações e os seus cânticos.

Por detrás destas iniciativas tem estado a Coligação para a Liderança Espiritual e Pública (CSPL, na sigla em inglês), uma organização comunitária inspirada na teologia da libertação e fundada em 2017 por paróquias, congregações religiosas, escolas e outros grupos. Adota uma “profunda espiritualidade contemplativa e preocupação ativa com a justiça”, que ganhou nova vida nas liturgias públicas deste outono, ainda que, desde o início do atual mandato de Trump, tenha começado a perceber sinais de “quão ruim a situação ficaria” com o ICE. “Vendo o que aconteceu em Los Angeles e Washington, D.C., tivemos de levar isso a sério”, confessa Arellano-Gonzalez, um dos promotores. A próxima ação da CSPL está já marcada para a Quarta-Feira de Cinzas, no próximo dia 18 deste mês de fevereiro.

Os animadores deste movimento organizado recusam a crítica de que estão a politizar a missa. “Para mim, foi uma experiência eucarística muito poderosa”, diz a religiosa Christin Tomy. “Ao compartilharmos o Corpo de Cristo, estávamos a testemunhar a fragilidade desse Corpo diante de práticas de imigração realmente desumanas.”

Por sua vez, o provincial dos Claretianos, o padre Paul Keller, entende que “está a acontecer uma espécie de batalha espiritual”. “Para responder a uma crise espiritual, é preciso usar meios espiritualmente poderosos. Como católicos, não temos meios espirituais mais fortes do que a eucaristia.”

Entretanto, a CSPL criou kits de ferramentas para que outras paróquias e dioceses realizem as suas próprias liturgias públicas. “Nada disto aconteceu da noite para o dia, mas isso não significa que outras pessoas não possam fazer o mesmo”, diz Arellano-Gonzalez. E, dando a razão profunda da ação em “A desumanização e a crueldade são diferentes de tudo que já vi. O fruto maligno do ódio, da polarização, da opressão – você sabe que é o mal em ação”.

Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

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