A porta abriu-se e logo um cumprimento entusiástico, acompanhado de uns braços abertos, envolveu Paula num acolhimento sentido, com aquela manifestação de amizade que ela já conhecia e que sempre a enternecia.
João esperava atrás da mãe, ansioso por expressar também ele a sua felicidade pela visita de Paulinha, que conhecia desde pequenina, quando as mães de ambos se encontravam em época de férias.
– Paulinha, como está a mãe? Ultimamente estou a ouvir pior e já não telefono tanto. Mas prefiro ouvir mal e continuar a fazer anos – dizia Cecília com humor, brincando com a sua idade.
– Cecília, você continua ótima! Qual o segredo para essa juventude?
– Não precisa ser tão generosa Paulinha, mas na verdade, sinto-me bem. Acho tão estranho ter 92 anos. Os meus filhos é que se assustam! Veja lá a Paulinha que nem querem que eu conduza! Para não os assustar, nem digo onde vou!
– Pois é Paulinha, eu também não conto aos meus irmãos. Eu é que sei como a mãe é forte – confirmava João, olhando a mãe com ternura, e orgulhoso das suas qualidades.
Na verdade, João, com 56 anos, sabia quanto a mãe Cecília era forte: dependia dela desde que nascera e ela nunca deixava que algo de mal lhe acontecesse. As suas dificuldades intelectuais não lhe permitiam ser autónomo e as crises de ansiedade impediam-no de resolver sozinho as situações do dia-a-dia.
Desde que o pai falecera com 58 anos e os irmãos constituíram as suas famílias, João voltou a sentir a mãe só para si. E ela não parece cansar-se de cuidar dele, mesmo quando o invadem aquelas crises de solidão, ou de zanga, ou de medos. Ao longo dos anos, Cecília foi aprendendo qual o tempo, o gesto, a palavra, o silêncio mais eficaz para apaziguar e tranquilizar o seu filho que, em muitas dimensões, continua menino. E sempre, sempre, Cecília agradece a Deus a vida que se renova em cada dia, e que lhe permite assegurar os cuidados a João.
Paula olha à sua volta e vê nas fotos expostas nos móveis e nos quadros de parede, os registos de momentos históricos da família. Estão ali desde que se lembra de vir a casa da amiga da mãe. E continua a encantar-se com a constante que sempre a atraiu: o sorriso de Cecília, deixando transparecer aquela alegria de viver e uma ternura no olhar que faz adivinhar quanto sabe criar bem-estar à sua volta.
Paula bem conhece esta sabedoria de Cecília. Sempre que vai à cidade e precisa de alojamento, basta ligar-lhe para ter um espaço pronto a recebê-la, abrindo-lhe não só a sua casa como o seu coração e até
a sua história.
E quando se despede, Cecília renova o convite a voltar, com aquele mesmo olhar de ternura das fotos, mas aprimorada ao longo dos anos.
Foram apenas 30 minutos de visita a Cecília e a João, mas Paula deixou naquela casa, a sua afirmação de quanto são destacáveis no mundo dos seus afetos. Deixou-lhes sorrisos, doces memórias reavivadas – e os pastéis de nata da loja de que são fãs e que só os amigos de verdade sabem adivinhar!
E Cecília e João, naquele cuidado mútuo de quem se ama, reavivaram em Paula as cores de um quadro tranquilizador, onde ambos escrevem uma lição sobre a vida, sobre a missão que é cuidar e sobre a propagação do amor, muito para além das fronteiras de quem ama.








