Virgínia saiu apressada do convívio para casa. Tinha tarefas inadiáveis de preparação para o dia seguinte: ultimar os ingredientes para a sopa de trigo, planeada para ser o almoço de um grupo de 80 pessoas, apoiadas pelos serviços sociais da zona, a pedido do presidente da junta de freguesia.
Não é uma sopa qualquer: é a sopa de trigo da Virgínia. Pode ser pelos ingredientes, ou pelo modo especial de preparar, que divulga por todos, ou ainda e, sobretudo, pelo carinho com que prepara tudo, já imaginando o prazer que pode proporcionar.
No dia seguinte, estaria ela bem cedo na cozinha do centro de atividades, de sorriso tranquilo e pronta para iniciar a tarefa, coordenando as colaboradoras que se lhe juntaram.
Desde que se disponibilizou no centro de atividades que frequenta, para se responsabilizar por um almoço de grupo e os presenteou com a sua sopa de trigo e pão feito por si, tem sido solicitada a colaborar com diversas organizações de cariz social.
No final do dia de colaboração, Virgínia regressa a casa de coração cheio.
É sempre neste estado de cansaço feliz que chega a casa nestes dias em que cozinha para pessoas que nem conhece. Fica a espreitar as expressões
dos convivas, e a sentir-se agradecida por isso.
Todos sabem que nesses encontros, alguns convidados mais idosos ou carenciados, trazem uma taça para, no final, levar uma dose extra para alguém da família, ou para a refeição do dia seguinte.
Por vezes, vai também cheia a taça que Virgínia traz, para a eventualidade de poder distribuir por algum dos vizinhos mais carenciados.
João, o marido, sabe que Virgínia precisa, para ser feliz, de estar em movimento, a contribuir de alguma forma para “espantar” tristezas.
Desde jovem, quando João conheceu Virgínia, diria que os dedos dela se prolongavam nas castanholas que marcavam o ritmo das cantorias nos encontros da aldeia. E no sorriso animado e divertido que distribuía com graça, mostrava quanto a preenchia estar com pessoas e vê-las em festa.
Não fora ao acaso que, 42 anos depois, quando ambos se reformaram, Virgínia esclareceu:
“Sabes que eu não consigo ficar em casa parada, como se o mundo não existisse…”
De facto, Virgínia tornou-se o primeiro socorro dos vizinhos mais solitários. Sabem que ela se importa com as tristezas que relatam e sabe buscar a ajuda que falta. E sabem que quando Virgínia chega, traz uma taça de sopa, uma oferenda da horta, ou simplesmente, aquela presença de alegria que “espanta tristezas” e torna o dia mais luminoso.
Também João sabe que, em cada regresso de Virgínia a casa, ela traz o sorriso animado e divertido de quem acredita que viver é fazer festa, e que, de forma natural, é capaz de transformar em brincadeira os gestos simples, escondendo o seu cansaço com a felicidade de alguém.








