Ilustração: David Oliveira | Texto: Teresa Carvalho

Nibim conseguira. A sua menina não estava condenada às profecias do feiticeiro. Ninguém faria mal à sua filha.
No hospital, os médicos selecionaram a pequenina Makisa para integrar o programa de cooperação médica internacional. Apesar dos danos cerebrais causados pelo tempo sem tratamento, uma cirurgia em Portugal seria suficiente para salvar e permitir melhor qualidade
de vida.
Nibim não sabia o que teria de enfrentar. Só sabia que tinha um medo tão grande que não conseguia medir, mas o medo maior era o de ficar sem a sua Makisa e o de ver a sua cabecinha a crescer desmedidamente. Contudo, bem maior do que o medo, era o tamanho e a força da sua esperança.
Foi assim que Nibim e a sua pequenina Makisa, acomodada no carrinho de bebé, entraram sozinhas num mundo novo, num país desconhecido, onde os hábitos são estranhos, e a língua, sendo a mesma, não entende. Mas, nada disso importava, se Makisa ficasse bem.

Contudo, a cirurgia não poderia resolver os danos cerebrais já causados. Makisa não via, não andaria, não falaria. Mas ouvia e sentia o toque. Tranquilizava-se com a voz da mãe e com música, ou com o toque suave de alguém a afagar-lhe o rosto ou o corpinho frágil.
Eram horas de regressar a casa, a África. Lá, disseram os médicos, Makisa deveria fazer fisioterapia, ter consultas de especialidades de controlo, ter alimentação equilibrada, controlada, tomar os medicamentos…

Eram tantos os cuidados para que Makisa estivesse bem… Alguns que nem entendia.
De novo, o medo de Nibim a crescer: como garantir tudo isto à sua menina, numa aldeia longínqua da África pobre, onde teria de andar várias horas ao sol, num caminho feito de terra, para chegar ao hospital?

Decidiu: A tia! Tinha de contactar a tia que emigrara para Portugal. A tia encontraria solução!
No dia seguinte, a tia de Nibim assegurava aos serviços sociais que aceitaria Nibim e Makisa na sua casa. Cisalda não quis saber que implicações teria. Simplesmente acolheu.
De repente, Nibim e Makisa estavam acomodadas numa sala transformada em quarto, rodeadas de Cisalda, o marido e os seus dois petizes, que mostravam a sua excitação explorando a bebé com toda a cautela.
E a vida mudou!

A vida pacífica e organizada de Cisalda e Joaquim passou a ser um corrupio de terapia em terapia e a saltitar todos os serviços que pudessem ajudar Nibim e Makisa. Passado um ano, estão cansados, com a casa superlotada, os filhos a reclamar a atenção que tinham, noites de sono por dormir, mas de coração cheio, sempre que olham os olhos de mãe agradecida de Nibim, a evolução de Makisa, e os avanços dos seus petizes, todos os dias, nas suas descobertas de como ser feliz ao partilhar e cuidar.

Também Nibim está exausta. Mas sonha! Sonha em conseguir documentos que lhe permitam permanecer em Portugal. Sonha ter um trabalho, enviar dinheiro e medicamentos para a mãe e para os irmãos doentes. Sonha que um dia o pai de Makisa vai também poder juntar-se a ela e à filha, e juntos, conseguirão arrendar uma casa como a sua tia e viver em família reunida!
Sonha que um dia, a sua filha vai sorrir todo o tempo! E enquanto Nibim sonha, canta. E a sua canção feliz e doce tranquiliza a sua menina.

 

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