Beatriz chegou apressada, depois de um turno exaustivo no hospital onde era enfermeira. Um grupo de crianças aguardava-a à porta de casa, aproveitando a espera para fazer o que mais gostavam: brincar. À sua chegada, dez petizes cercaram-na numa roda acotovelada, obrigando Beatriz a dar aquelas gargalhadas sonoras que encantavam os petizes.
Consigo, trazia sempre um miminho feito do carinho que Beatriz distribuía naturalmente, como extensão natural de si mesma. Abrindo a porta, nem era preciso convite para que a pequena sala da casa da família ficasse preenchida, num rodopio de cor e animação, prontos para as explicações de Beatriz, que, depois das tarefas escolares, eram complementadas com histórias de encantar que alimentavam a esperança e a vontade de quererem ser pequenos heróis de verdade.
Beatriz esforçava-se para que através das explicações aos três grupos que apoiava no seu bairro, todas as crianças e jovens pudessem alcançar o melhor de si: na escola, em qualquer projeto que abraçassem, no universo que escolhessem. E todo o bairro confiava nela e agradecia a sua dedicação generosa.
Beatriz lembra-se dos esforços da mãe quando chegou a Lisboa e foi viver para o bairro africano. Lembra-se de que o que traziam de riqueza para enfrentar uma nova vida neste outro país, se resumia à mãe com o grupo de filhos ao seu redor e muitos sonhos no regaço.
Lembra-se dos horários de trabalho intermináveis da mãe como empregada doméstica, das refeições inventadas que ela aprendeu a fazer para os irmãos mais novos, dos projetos que alimentavam e das alegrias imensas de quando uma nova etapa era conquistada.
Também sabe da infelicidade das famílias que viam as suas crianças serem diferenciadas e os jovens serem discriminados por serem africanos e pertencerem ao bairro. Viu os efeitos devastadores que esta rejeição social teve nos seus percursos de vida e na história das suas famílias e de todo o bairro.
O seu diploma de enfermeira foi motivo de orgulho pessoal, mas o que mais a enlevou, foi ver o orgulho da sua mãe e o calor da festa de todo o seu bairro. Ela era orgulho para todos, e percebeu que seria dessa forma que ajudaria a alterar mentalidades sobre o valor das pessoas e das famílias que ali viviam. Desde então, percebeu que parte da sua vida seria dedicada a promover o sucesso das crianças e jovens deste seu cantinho especial, o seu bairro.
No serviço onde trabalhava, a dedicação e competência de Beatriz sobressaiu. De tal forma que o diretor de serviço a propôs para uma especialização, que Beatriz aceitou de imediato.
Durante o curso, Beatriz destacou-se no grupo, tendo sido convidada a integrar uma grande empresa de saúde, com condições irresistíveis. Contudo, não teria possibilidade de continuar a dar explicações no bairro. Beatriz agradeceu a proposta, mas rejeitou-a por incompatibilidade com a sua outra missão no bairro.
A empresa insistiu e propôs-lhe novo horário para lhe permitir conciliar todos os projetos.
Foi assim que Beatriz pôde reafirmar-se e ter mais meios para apostar na formação das crianças e jovens da família alargada que adotou, o seu bairro, sentindo, no encontro entre o seu olhar e o olhar das crianças e jovens que abraçava, os sonhos a multiplicarem-se e vidas novas a acontecer, contrariando e rasgando as fronteiras do isolamento e dos limites que a exclusão social impõe.








