Ilustração: David Oliveira | Texto: Teresa Carvalho

Ricardinho era um bom menino! Era doce, disponível, sempre pronto a ajudar. Não sabia contrariar. Sentia-se tão humilde, tão pequenino!
Foi assim que Ricardinho cresceu, humilde, aceitando o que outros decidiam para si. A sua família já assim aprendera e nunca ensinaram a Ricardinho que ele podia pensar por si mesmo e decidir o que fazer com a sua vida.

Talvez por isso, Ricardinho aceitava o vinho e a droga que lhe davam como parte do pagamento do seu trabalho nos campos. Talvez por isso, Ricardinho não estudou nem se importou com isso.
Por causa disso, Ricardinho era pobre e ia ficando cada vez mais pobre, mais enfraquecido e a decidir cada vez menos. Ricardinho nem notava. Simplesmente anulava-se, vendo-se cada vez mais pequenino.

Um dia, Ricardinho foi abordado por um casal diferente. Bem diferente das pessoas que conhecia. Perguntaram-lhe se queria trabalhar no campo deles. Dar-lhe-iam um ordenado e um sítio para ficar. Ricardinho arregalou bem os seus olhos castanhos, e, estonteado pelo álcool que ingerira e pela surpresa, e sem entender bem a proposta, disse que sim, até porque não sabia contrariar.

E foi assim que Ricardinho foi levado e começou a trabalhar num campo diferente.
Ali não lhe deram vinho. Nem lhe deram droga. Deram-lhe ferramentas de trabalho, refeições, um vencimento, e, bem estranho para Ricardinho, respeito, dignidade! Era tratado como pessoa e tinha uma companhia.
Ricardinho passou a acompanhar João em todas as tarefas do campo. Juntos, desbravaram terreno, fizeram plantações, construíram proteção para animais, um tanque para peixes, plantaram jardins, colheram o que semearam e, quando Ricardinho já era capaz de assumir novas responsabilidades, adotaram um cão que passou a ser a companhia sempre presente de Ricardinho.

Ricardinho observava, perguntava, treinava, aprendia, experimentava o que significava ser respeitado. Acolhiam-no à mesa, viam os filmes e ouviam os seus relatos sobre as conquistas de que se orgulhava, aplaudiam as suas invenções e soluções que encontrava.
Ricardinho sentia e sabia: estava a crescer por dentro. Já não era menino, menino inferior. Sentia-se jovem, bem vivo, cheio de sonhos, com vontade imensa de aprender, de inventar, de decidir e de inovar! Descobrira que era capaz! Era capaz de aprender, de cativar, de confiar!
Tomou uma decisão: “quero batizar-me e ter por padrinhos o João e a Emília”.
Foi assim que num domingo cheio de sol, Ricardinho, vestido de branco, de vela orgulhosamente ostentada, integrou a procissão que entrava na igreja, preparado para dizer ‘Sim’ a mais um convite – desta vez, aceitaria com convição: o seu destino e dom de ser Filho de Deus.

Naquele dia, Ricardinho reviu o filme dos seus 27 anos. E agora, de coração cheio, deu graças ao seu Deus que o acolheu, apostou nele e lhe enviou o João e a Emília para, através deles, o libertar, o abraçar, e oferecer-lhe um mundo imenso de descobertas sobre si, a amizade, a confiança e sobre como um menino pequenino, a achar-se muito pequenino, pode transformar-se num homem decidido, criativo, alegre e capaz de construir em liberdade a sua própria história. A história de um homem grande.

À distância, mas sempre perto, João e Emília olham extasiados o tamanho deste homem grande que uma vez era menino e que eles tiveram o privilégio de o ajudar a crescer.
Aconchegados e com o olhar no presente sorridente, ambos se aperceberam de quanto eles próprios tinham crescido por causa de Ricardinho.

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