A mala estava pronta. O sono tinha-se esfumado com a ansiedade de iniciar um novo trabalho num hotel de uma localidade que nunca visitara. Não sabia quem encontraria, como o receberiam, que tarefas lhe dariam… Lucas estava realmente assustado.
Na sua história de vida, Lucas escondia, envergonhado, os evitamentos a novos desafios e tantas desistências que o impediram de alcançar outros horizontes.
Desta vez, Lucas dizia a si mesmo que não podia desperdiçar a oportunidade.
Mas o medo continuava a invadir os seus pensamentos. Aquele medo!
A chuva forte a bater na vidraça deu força às memórias cinzentas da história de Lucas. Sentia-se perdido! Só, perdido e com medo, como tantas vezes ao longo dos seus 25 anos.
Sem dinheiro para um táxi, Lucas atreve-se a ligar para a pessoa, só uma, que talvez o possa ajudar.
– Estás a ligar-me às cinco horas da manhã, Lucas?
Aconteceu alguma coisa de grave?
– Não. Só queria perguntar se a madrinha podia dar-me boleia para apanhar o comboio das 07h00? Eu ia de autocarro, mas está muita chuva…
– Pois, está mesmo muita chuva!
A “madrinha” era o pronto-socorro de Lucas. Não era madrinha, mas isso não interessava, porque era assim que era sentida. E desta vez a “madrinha” também não falhou.
A viagem até a estação de comboio não durou muito tempo, mas foi suficiente para a “madrinha” aquecer o coração de Lucas e derreter o gelo das dúvidas que o invadiam. Os alertas, bem ao estilo maternal, davam a Lucas a sensação adocicada de ser importante para alguém. Nestes momentos, sentia-se cheio de coragem
e capaz de conquistas de verdade.
Um envelope posto no bolso de Lucas, acompanhado do reparo de sempre – “Não é muito, mas pode fazer-te falta… Usa-o bem” – trouxe ao jovem uma nova tranquilidade. Será que a “madrinha” ouvia as batidas aflitas do seu coração?
Depois da boleia no meio da chuva, dos alertas ao estilo materno, do abraço caloroso à despedida, Lucas sentia-se um homem decidido. Estava a conseguir espantar os medos.
Já no comboio, Lucas olhava o horizonte e sentia que seria vencedor: Vou provar que consigo! Hei de deixar a “madrinha” orgulhosa.
Pegou no telemóvel e escreveu uma mensagem àquela senhora que não desistia de ser sua amiga e seu suporte, mesmo depois de falhar em tantas oportunidades que ela, insistentemente, organizava para si:
– Obrigado, “madrinha”! Um dia, no futuro, vou deixá-la orgulhosa de mim!
A “madrinha” respondeu com uma mensagem que desvaneceu os medos de Lucas e vitalizou a confiança
dos dias felizes:
– “No futuro Lucas? Então o que tem acontecido com os motivos de orgulho do passado e do presente? Por outro lado, nem a mim nem a ti tens de orgulhar. Teres um imenso respeito, isso sim! E com ele, com toda a tua liberdade, construirás cada momento, como a melhor obra de arte que te for possível. E sim, as tuas conquistas, dar-me-ão sempre felicidade, por te trazerem felicidade, também a ti. Conta comigo ao teu lado!”
Lucas leu, releu e guardou aquela mensagem, usando-a como o ar ascendente que precisa para voar. Iria vencer, sim! Não estava sozinho!








