João era um pensador. E corria. Era um pensador-atleta. Ou um atleta-pensador.
Nas reflexões que fazia sobre a vida, João tentava responder a uma questão que sempre o inquietara: como corresponder à responsabilidade que lhe fora confiada ao nascer e viver neste tempo e neste lugar?
A sua formação em sociologia desenvolvera ainda mais a sua sensibilidade para a qualidade de vida das pessoas em condições de dignidade necessárias à realização pessoal e à assunção do seu papel de construtores de um mundo mais humano.
Em todas as respostas, João sentia-se pequenino e inconformado. Reconhecia que não tinha meios nem condições para fazer algo que produzisse alterações, para além de pequeninos pormenores da sua própria vida. Às vezes até se contentava em passar os dias a ser boa pessoa. Mas só às vezes, porque lá no seu íntimo, andava insatisfeito, à procura de algo mais.
Quando se sentia mais desanimado, refugiava-se no sonho.
Sonhava que um dia
a educação das crianças privilegiará a cooperação, a solidariedade, a responsabilidade,
a tolerância, a consciência do “nós”.
Sonhava que um dia a solidariedade de cada pessoa não deixará ninguém com fome ou sozinho, ou a sentir-se pequenino.
Sonhava que um dia todas as pessoas terão condições para se sentirem úteis e realizadas.
Sonhava, sonhava… mas não realizava!
Foi anunciada uma nova corrida.
A inscrição de João não se fez esperar. Era a correr que João melhor se encontrava consigo mesmo. Sentia cada passo como um novo desafio a lançar para nova conquista.
Mas nesta corrida, João nem sentiu os passos, porque eles voavam como o seu sonho, esculpindo
a resposta que andava há anos à procura:
– Vou dar voz aos passos. Vou dar nome às caminhadas.
É isso mesmo: o meu lugar é ser um mensageiro! É correr em defesa de causas.
Nessa corrida, João não sentiu cansaço, nem dores, nem o preocuparam os seus limites de tempo. Foi com um desejo de continuar, de correr, correr sem parar que transpôs a meta.
Um ano depois, João tinha um objetivo com nome e um programa organizado: Corrida Contra a Discriminação.
A notícia espalha-se, o tema é novamente falado. O eco de cada um dos seus passos afirmava que nenhuma pessoa, nenhum cidadão, ninguém o pode admitir.
Quando terminou o percurso, estava preparado um debate onde João partilhou aquilo que aprendeu, o que refletiu, o que há por fazer. E do debate, João e os demais saem bem mais enriquecidos e motivados para provocarem a diferença.
As causas que foi abraçando, deram-lhe ainda mais vigor aos passos e em cada novo ano, as causas que defendia foram aumentando e os percursos foram-se multiplicando, tal como os acompanhantes e apoiantes.
João já não sabe estar sem correr, como já não sabe viver sem se envolver nas mudanças que quer ver acontecer. Porque é este o seu lugar no seu tempo e no seu espaço e não poupa esforços para o ocupar de corpo inteiro, correndo num caminho que não tem final, como não têm fim as mudanças de que quer ser parte!
Teresa Carvalho








