Ilustração: David Oliveira | Texto: Teresa Carvalho

“Centro de Apoio à Vida” – era o nome da placa colocada na porta que se abriu para Carolina entrar.
Não sabe o que bate mais forte: se a campainha que acaba de pressionar, se o seu coração a galope, ou se o coraçãozinho de Amelinha que traz no ventre.
Entra naquela porta sem nada. Vem da rua e na rua não se tem nada.

Já houve dias em que nada lhe faltava. Mas nessa altura Carolina sentia falta de aventura, de novidade, de uma vida sem limites, sem exigências ou responsabilidades.
Foi à procura dela, e descobriu tantas novas sensações nesse mundo imenso de liberdade que parecia não ter fim… e quantos outros povoavam também esse mundo!?

Foi a estes “outros” que Carolina se juntou e sentia segura. Eles sabiam como sobreviver nesse universo paralelo, onde existiam sem ninguém ser visto ou olhado, ou escutado, para não incomodar. Foi aí, na rua, que Carolina viveu um dia depois do outro, esquecida de qual era o cheiro dos lençóis, o conforto de um banho quente, o sabor do caldo de carne feito pela mãe, a algazarra da escola.

Nesta história que Carolina começou quando ia à procura da liberdade, afinal não se sentiu livre. Era uma história sem princípio que se interessasse, sem previsão de futuro… era uma história sem jeito.
Nesse sítio escondido da existência, um dia Carolina sentiu um pequeno ser habitar o seu corpo.
Mexia-se, palpitava, tinha vida – e este pequeno ser fez Carolina despertar.

De imediato o seu pensamento voou para um tempo distante, quando usava lençóis que cheiravam a alfazema, e um abraço gigante que não lhe podia dar a liberdade que ela pedia, porque sabia que se lha desse, ela usá-la-ia e poderia perder-se em outros mundos.

De tudo o que anteriormente possuia, Carolina agora não tinha nada. Estava carregada de temores, de rejeições, de “não´s”.
Depois de muitos avanços e recuos, Carolina veio ter aqui, a esta campainha, que tocou de olhos fechados, com força, como um grito muito tempo calado. Aqui talvez a ajudassem a regressar a casa. Será que a aceitariam de volta?

Durante todo o tempo de rua e de consumos, a mãe, o pai, os irmãos, a família, sempre tão esquecidos e arredados das suas preocupações, reapareciam agora, nas suas recordações e desejos de os ver e ser por eles recebida, e poder cheirar de novo os lençóis de alfazema e aninhar-se no abraço gigante que também faz caldos e espanta os fantasmas do sono.

A porta abriu-se. Era tudo ou nada. Um pontapé minúsculo no ventre fê-la saber que não estava só. Estavam juntas nesta força de querer viver.
Afinal, não estava sem nada! Chegava ali com um ser que, ainda antes de lhe conhecer o rosto, era já capaz de transformar a sua vida.
Carolina teria de assegurar ajuda para ambas.
E foi o que aconteceu. O desejo de ser novamente família, pôde ser traduzido em palavras que montaram pontes e garantiram abraços.

Quando Carolina chegou, estavam todos lá à sua espera, como sempre tinham estado, à espreita de um sinal para poderem novamente partilhar com ela o caldo quente da mãe, à volta da mesa que precisava dela para estarem completos.

Agora, estes colos que nunca se tinham fechado para Carolina, independentemente dos outros universos por onde se tenha aventurado, acolhiam também a sua filha, que entrava no lugar aonde ambas pertenciam e que precisava delas para construir a sua própria história: estavam em família.