Os alunos da turma 17 do 10.º ano, vestidos a rigor, ostentavam ao peito, orgulhosos, o cartão identificativo de “Organização” com o desenho de um relógio. Tinham um objetivo comum de turma: iniciar um movimento novo na escola. Começaram a fazê-lo junto dos colegas do 10.º ano. Convidaram a professora Lídia, criadora do Banco do Tempo na sua região e que fora uma professora querida daquela escola. Ela apresentaria uma outra lógica de tempo: o “tempo” transformado em moeda de troca de atos e de afetos.
A professora Lídia entrou no auditório repleto de alunos e professores do 10.º ano que a aguardavam.
O alarido inicial no auditório fê-la matar saudades daquele tempo em que, todos os dias, podia “aprender juventude”, como costumava dizer quando falava da sua vida de professora de Francês. Talvez por isso, ou por ter aprimorado a arte de se encantar, hoje, aos 82 anos tem um olhar sereno, sorrindo por dentro, de coração cheio, e sempre pronta para a ação e para o sonho de criar laços de proximidade.
Depois das apresentações e agradecimentos formais, a professora Lídia tomou a palavra:
– Não sei bem porque me convidaram a falar de tempo a jovens, mas talvez seja porque ao olharem para mim, podem ver “muito tempo” – e riu-se divertida, arrastando atrás de si gargalhadas acolhedoras. E continuou:
– Neste tempo em que estou aqui convosco, vou convidar-vos a entrarem num pequeno delírio comigo.
Imaginem vocês que tinham um banco onde as contas eram feitas de tempo.
Vamos pensar no João que está aqui ao meu lado e é um excelente aluno em matemática.
Ao lado dele está o André que decide pedir-lhe umas explicações para o próximo teste.
Por sua vez, o Tomás é um especialista a fazer vídeos, conhecimentos que dariam muito jeito ao João que precisa fazer um trabalho para Filosofia.
Se o João der duas horas de explicação ao André, fica com um saldo de duas horas na sua conta do banco do tempo, que pode, nas explicações com o Tomás aprender a fazer vídeos, ou, por exemplo, a aproveitar a perícia do Pedro que sabe consertar-lhe a bicicleta, ou até a treinar a dança para o baile, com a professora Natália, ou a resolver o pingo da canalização lá de casa, com o senhor Eduardo.
A professora Lídia tinha cativado a assembleia, com aquele jeito de “avozinha” acolhedora e divertida.
O burburinho na sala foi aumentando de tom. A professora Lídia voltava a sentir o encantamento que a vitalidade dos jovens sempre lhe provocava.
E retomou:
– Vejo que já temos aqui grandes investidores neste Banco. Os vossos colegas que organizaram este encontro já têm uma boa conta, de certeza. Por sorte já vi que eles têm ali os impressos de criação de conta! Que ninguém queira ficar pobre. Criem conta! E por causa de vocês, e por causa do valor que atribuem ao tempo, esta escola fará a diferença: vocês estão mudando a vossa história criando laços, trocando energia, saber, força, talentos, e ao mesmo tempo, recheando a vossa conta privada do tempo que podem usar quando for necessário.
– Agora, só gostaria de saber: algum de vós, à saída, poderia orientar-me nos corredores desta escola? Quem o fizer fica logo com saldo positivo de pelo menos uma hora. Sim, porque faço questão de me deliciar com este tempo que alguém me vai conceder, permitindo-me levar para casa mais uma mão cheia de felicidade. Quem se candidata a este primeiro saldo no Banco do Tempo?
A onda de vozes animadas voltou a invadir por completo a sala e os braços no ar completavam o cenário. A professora Lídia sorria, feliz, vendo o sonho a desenrolar-se na diversão do momento, certa de que fará o seu efeito, no tempo certo: No tempo deles, estes construtores de um novo tempo.








