Ao mesmo tempo que uma nova investigação da Amnistia Internacional documenta o “impacto devastador” dos ataques sistemáticos da Rússia ao sistema energético da Ucrânia durante aquele que é o inverno mais difícil desde o início da guerra, o Papa acaba de fazer chegar ao país do Leste Europeu, através da Esmolaria Apostólica, 80 geradores e milhares de medicamentos, que já estão a ser distribuídos à população através da rede paroquial das diferentes dioceses.
Leão XIV responde, assim, aos apelos de vários bispos locais que, face às temperaturas abaixo de -20ºC que se têm feito sentir em algumas regiões e à destruição provocada pelos bombardeamentos das forças russas, acompanham de perto o sofrimento do povo ucraniano.
De acordo com o Vatican News, três camiões partiram na semana passada da Basílica de Santa Sofia, em Roma, e já chegaram aos seus destinos, nomeadamente Fastiv e Kyiv, cidades que foram duramente atingidas pelos mais recentes ataques.
Além dos geradores e medicamentos, foram também enviados suplementos e melatonina, muito procurada porque ajuda a conciliar o sono nestes tempos de medo e ansiedade constante, assinala o portal de notícias do Vaticano.
O Dicastério para o Serviço da Caridade adianta ainda que está neste momento a ser finalizada a carga de mais um camião com milhares de antibióticos, anti-inflamatórios, anti-hipertensivos e alimentos de vários tipos.
Uma onda de solidariedade que só tem sido possível graças ao Banco Farmacêutico Italiano, a várias empresas farmacêuticas do país, ao grupo Procter&Gamble e também aos donativos de milhares de pessoas individuais. O cardeal responsável pela Esmolaria Apostólica, Konrad Krajewski, “agradece a todos em nome do Papa”.
“Estamos em modo de sobrevivência extrema”
A mais recente investigação da Amnistia Internacional, divulgada esta terça-feira, 10 de fevereiro, inclui uma série de testemunhos de sobreviventes que estão atualmente a enfrentar um inverno rigoroso, sem aquecimento, eletricidade ou água corrente na Ucrânia.
Os entrevistados – e os próprios funcionários da organização de defesa dos direitos humanos na Ucrânia – falam de blocos de apartamentos gelados, tubagens congeladas e rebentadas, elevadores parados, telemóveis descarregados e redes telefónicas interrompidas.
Muitos residentes têm recorrido a acampamentos e fogões a querosene para aquecer tijolos e garrafas de água. Alguns têm recorrido a mecanismos de sobrevivência perigosos, como montar tendas de acampamento dentro dos seus quartos e acender velas dentro delas para combater o frio, refere o relatório da investigação.
Svitlana, uma pensionista de Kyiv, conta que, durante os apagões, aquece “um pouco de água numa chávena num fogão a querosene”, enche “duas garrafas, uma [vai] debaixo dos meus pés, a outra nas minhas mãos, para não congelar. E todos dormimos vestidos… Vestidos debaixo dos edredões, vestimos tudo o que temos”.
Além disso, acrescenta a Amnistia Internacional, há muitas pessoas, incluindo idosos e pessoas com deficiência, que estão isoladas e confinadas nos seus apartamentos, sem qualquer meio de comunicação, “cujas circunstâncias são provavelmente muito piores do que as documentadas nesta investigação e que podem não sobreviver a este inverno para contar a sua história”.
“Neste momento, estamos em modo de sobrevivência extrema”, afirma uma das entrevistadas para resumir as circunstâncias em que se encontra grande parte da população.
Para Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia Internacional, “a Rússia não está apenas a travar uma guerra de agressão contra a Ucrânia, está a submeter toda a população civil a uma campanha de extrema crueldade. A escala e a intensidade dos seus ataques a infraestruturas energéticas vitais indicam claramente uma estratégia para espalhar o desespero entre a população civil ucraniana e quebrar o seu moral”, afirma a responsável, citada no comunicado que divulga a investigação.
E deixa o alerta: “As manchetes dos jornais não conseguem transmitir a experiência de tentar sobreviver
sem eletricidade, água corrente e aquecimento durante um longo e gelado inverno e no meio de ataques aéreos noturnos. Hoje, enquanto contamos essas histórias, os ataques implacáveis da Rússia continuam e as condições humanitárias na Ucrânia tornam-se cada vez mais catastróficas”.
Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.








