Há 11 anos que Amélia espera este dia, mesmo sem dizer ou até mesmo sem saber. É o dia da resposta à grande pergunta: “Como será ela de verdade? Gostará de mim?” Enquanto espera a chegada do comboio à estação, Amélia sente a intensidade do desejo e a esperança de que as duas partes do seu mundo se unam num só batimento. De um lado, o vazio feito do passado que não conhece. Só conhece as histórias que lhe contam e as lembranças, poucas, que lhe restam, insuficientes para responderem às dúvidas imensas por não saber bem quem é, de onde vem e, sobretudo, o grande “porquê” da sua história ser assim, descontinuada.
Do outro lado, uma família que a adotou, acolheu e a tornou sua, dando-lhe uma história recheada de colo, abraços, de desafios novos feitos de esperança de que os seus vazios possam ser preenchidos com as sementes do imenso amor incondicional. Agora, no momento em que a mãe que lhe deu a vida está quase a chegar, todos os sentidos de Amélia estão concentrados na linha do comboio, com o coração a bombear como se fosse ele a puxar a locomotiva que trazia a mãe. Ao seu lado, Ana e António vivem esta espera ansiosa, concentrados no apoio àquela sua menina que vai fazer 15 anos, mas que naquele momento sentem tão pequenina e frágil, como quando a conheceram na instituição, com quatro anos.
Esta era a prenda maior que lhe concederam, a pedido de Amélia. Sentia que era tempo de unir as partes divididas do coração e da sua história. Fosse qual fosse o formato, queria-se ver inteirinha. Precisava disso para construir, ela própria, a Amélia do futuro.
Ana e António, com um turbilhão de medos que se esforçavam por ocultar, foram à procura da senhora que, mesmo sem saber, lhes deu esta filha. Se Amélia precisava já desta fonte de felicidade, eles assumiram que a tinham de encontrar. Era esta a sua forma de amar, mesmo divididos pelo medo de que Amélia pudesse novamente sofrer.
O comboio chegou. Júlia desceu, devagarinho, de olhar ansioso, esperando que um abraço a perdoasse das muitas culpas que carregava escondidas, e que lhe tiravam muito do gosto de viver. O abraço chegou, com uma corrida de Amélia que não sabia esperar mais. O abraço chegou e durou… durou… durou! Ana e António eram as testemunhas do brilho deste encontro de dois corações que se apaziguam e se soltam das amarras de um passado que aprisionava. Os medos de Ana e António vão derretendo, aos poucos, agradecidos um ao outro, pela capacidade de amar Amélia de um jeito que lhes permite dar-lhe o direito e lutar, ambos, por esse direito da sua filha a construir os laços que a deixam ser inteira na sua história passada e na que ela vai construir.
O 15.º aniversário de Amélia tornou-se num verdadeiro hino ao amor. O seu presente maior estava ali: olhando nos olhos a sua história desde o ventre até agora, pronta para fazer crescer os valores que aprendera, numa liberdade de ser e de amar aqueles que, de todos os lados, eram precisos para que o seu coração tocasse uma música sem vazios ou silêncios angustiados. Amélia era agora verdadeiramente feliz, e isso era dito pelos seus braços gigantes que conseguiram abraçar numa só rodinha a mãe Júlia, a mãe Ana, o pai António e o mano Luís!








