Faltavam apenas 15 dias e Inês não podia deixar de preparar o dia que mais ansiava no ano: o seu aniversário. Pegou no telemóvel para ligar à única amiga que faltava contactar.
– Sabes, Lúcia, vou fazer anos daqui a duas semanas. Vais telefonar-me?
– Claro, Inês! Esse dia é mágico! Todos os amigos estão desejosos de te cantar parabéns no dia 15!
No outro lado da linha, Inês ria, feliz. A síndrome de Down com que nascera impedia-a de gerir a sua vida sozinha, mas isso não era um problema. Inês vivia com o pai, tendo como especialidade, criar e alimentar laços de ternura com as pessoas. Gostava de ter amigos! Gostava de dar abracinhos e encostar a cabeça no ombro dos amigos, encantava-a passar a mão nos cabelos compridos das amigas, vibrava com a música, com palmas, com o sol, com o vento, com a vida! Mas o seu dom maior era a sua sensibilidade: era capaz de detetar mil
e uma expressões nos olhos dos amigos e medir o tamanho das suas tristezas e alegrias.
O grande dia chegou! Era um dia 15 cheio de sol. Inês levantou-se bem cedo, ansiosa por receber os amigos, que vêm a casa ao longo de todo o dia, bem ao jeito do que Inês gosta.
Lúcia chegou. Bateu à campainha, escondendo atrás das costas o presente que escolhera cuidadosamente. Em corrida, Inês lançou-se ao pescoço de Lúcia, envolvendo-a num caloroso e prolongado abraço. Os seus olhos brilharam de curiosidade e desejo, ao detetarem um enorme laço a escapar de um saco azul.
– É para mim, Lúcia?
Sem esperar resposta, Inês põe a descoberto um casaco azul! Azul como o céu e como o mar, a cor de Inês. Vestiu-o. Quentinho, macio, aconchegante, e… azul!
– Vou ser sempre muito feliz com este casaco, Lúcia!
E Inês rodopiava, via-se e revia-se ao espelho, e, depois de mais um abraço à sua amiga, saiu a correr para contar ao pai o motivo de tanta felicidade.
Passada uma semana, Lúcia recebe um telefonema de Inês. Deixava transparecer preocupação e expetativa.
– Lúcia, tu não te zangas comigo se eu te contar que troquei o casaco azul? Sabes, ele era tão lindo, lindo, lindo, e era tão quentinho, que eu fui trocar por outro assim, para o meu pai, que ele tinha frio! Desculpas? Não te zangas?
Inês nem parecia querer parar para ouvir. Tinha tanto medo de magoar a sua amiga… Mas o pai tinha frio!
Lúcia não soube responder. Ainda revia as expressões de felicidade de Inês. Via a capacidade de se desfazer de um bem precioso em troca de um bem maior. Via o tamanho do amor!
Só conseguiu dizer:
– Oh, minha querida, fico muito feliz que tenhas conseguido encontrar uma forma de o teu pai não ter frio.
Do outro lado da linha, um suspiro profundo, daqueles que sacodem o peso de uma montanha. E depois, som de palmas e dança. Era Inês! Inês dançava, feliz, agora que sabia que o pai não tinha frio e que a sua amiga Lúcia continuava sua amiga, mesmo depois de trocar o casaco azul!
Deste lado da linha, ficou Lúcia, a dirigir-se ao encontro do calor do sol, a reescrever aquela lição sobre a nobreza do amor, ensinada pela sua amiga Inês, que nascera com trissomia 21 nos genes, e mestre na sabedoria de amar.








