Álvaro Pacheco | Diretor da Fátima Missionária

O espírito de pobreza, tal como tantos outros valores do evangelho, não tem a ver com o que se tem, mas com o que se é. Não são os euros que se têm na carteira ou na conta bancária que definem o ser-se pobre ou rico, mas sim os valores que mostram Deus presente na mente e no coração de uma pessoa. Mais ainda: segundo a lógica de Deus, riqueza e pobreza não são opostos, mas sim valores que se complementam. É sendo pobre diante de Deus que uma pessoa se torna rica.

Dizia São José Allamano: “Há pessoas que só procuram coisas grandes, extraordinárias. Ora, isso não é procurar a Deus. Deus tanto se encontra nas coisas grandes como nas pequenas.” O espírito de pobreza implica um processo de esvaziamento das ideias, valores e objetivos que promovem o ego, a arrogância, o orgulho negativo e ofensivo, a ganância e a mania de grandeza, entre outros, que “lentamente matam a alma”. Só quando uma pessoa se esvazia de tudo o que a afasta de Deus e do próximo é que consegue viver o espírito de pobreza: torna-se pobre de si, para se enriquecer de Deus e, ao mesmo tempo, enriquecer o próximo com os valores que promovem a vida.

Outra dimensão que está relacionada com a pobreza evangélica é o considerar a própria vida como sendo uma bênção e um dom que Deus quer fazer diariamente a quem faz parte da nossa vida. Ao mesmo tempo, é importante colocar ao dispor de Deus, na pessoa do próximo, a nossa vontade, as nossas capacidades e talentos, bem como outros valores como a empatia e a coerência de vida. Daí que Jesus, no início da sua missão, convidou as pessoas à conversão e, mais adiante, convidou Paulo a ser dele. Foi precisamente isto que São Paulo percebeu, após ter encontrado Jesus a caminho de Damasco: ou seja, percebeu que a maior riqueza é identificar-se totalmente com Cristo, dedicando-lhe toda a vida, todas as forças, todas as capacidades e vontades. A pobreza evangélica só tem valor quando se torna riqueza para alguém, quando se vive a vida em sintonia com os valores do evangelho. Assim, enriquecemo-nos à medida que nos esvaziamos do que não promove a vida e torna a fé estéril e vazia de sentido.

Álvaro Pacheco, missionário da Consolata