Ilustração: David Oliveira | Texto: Teresa Carvalho

Afonso colocou entre as suas, as mãozinhas de Simão.
O coração disparou numa felicidade infinita. Que vinham estas mãozinhas acabadas de nascer realizar? Que construiriam? Qual o seu papel e responsabilidade de pai? Um beijo emocionado carimbava o selo de ligação de duas vidas, num imenso respeito pela imensidão contida naquele pequenino ser, a que, agora, dava o nome mágico de “filho”.
Naquele momento, Afonso sentiu que era uma pessoa diferente. Começava uma viagem nova, desafiante e muito mais enriquecida. Tinha uma certeza: as suas mãos, os braços, os ombros, toda a sua vida, tinham mais uma missão: criar um mundo onde as mãozinhas que continha nas suas encontrariam as ferramentas de que necessitaria para realizar tudo quanto lhes caberia construir.
Foi assim que Isabel foi vendo Simão crescer: fazendo balancé confiante nos braços do pai ou instalado nos ombros seguros e poderosos de onde dizia que um dia tocaria as estrelas. Até lá, de lá do alto, Simão não resistia a retorcer-se para espreitar os olhos do pai, felizes por transportar um tesouro que cresce com a vida.
O dia impensado aconteceu: a empresa onde Afonso era trabalhador de mérito, encerrou. O universo da família pintou-se de escuro. Não havia alternativas. Cada nova tentativa, representava um novo fracasso.
A única saída: aventurar-se para fora do aconchego amoroso da sua casa, dos “seus”, do seu país. Este escuro aparecia ainda mais escuro do que todo o escuro que conhecera. Mas parar não era solução.

De lá longe, Afonso ainda sente o tamanho dos bracitos de Simão a abraçar-lhe o pescoço. Ainda sonha de forma tão real com os balancés, que se surpreende a levantar ritmicamente o braço, balançando Simão, bem preso às cordas afinadas do coração.
Quando Afonso olha as mãos cansadas e gretadas pelo frio a que não está habituado, quando vê no espelho as olheiras por falta do sono que os dois trabalhos não permitem, quando limpa as lágrimas de saudade e solidão trazidas pela distância feita de dor e sonho, ou quando treina a sua melhor fantasia de ator, capaz de inventar sorrisos e gargalhadas na hora de fazer a videochamada para Isabel e Simão, daí também recolhe a felicidade que lhe dá energia e força anímica para não desistir.
Nesses momentos, Afonso volta a sentir as mãos pequeninas de Simão nas suas, e o seu coração sabe que o lugar onde está, não importa, porque o seu coração tem capacidade elástica, e percorre o tempo e os lugares, todas as dimensões do universo, para estar e se sentir bem juntinho daquele ser a quem deu o nome mágico de “filho”, naquele primeiro momento em que esculpiu no coração a felicidade e a responsabilidade: sou o teu pai!
E um dia, porque as suas mãos gretadas não vão parar até poder regressar, vai colocar Simão aos ombros, e, nesse momento, vai ser ele, Afonso, que vai tocar as estrelas que lhe iluminam as passadas. Essa é a sua esperança e a sua certeza. Essa também é a esperança e a certeza de Isabel e de Simão, que, tal como Afonso, têm a mesma qualidade de coração elástico que lhes permite pulsar ao mesmo ritmo. Por isso, e porque de cá de perto e de lá de longe, não cessam de cuidar das cordas de ligar, estreitam-se os laços amorosos que as sustentam e fortalecem!