Ilustração: David Oliveira | Texto: Teresa Carvalho

Valter tinha 37 anos e coração de menino. As suas gavetas tinham carrinhos de todas as cores e tamanhos. Eram o seu mundo mágico, completado por uma grande caixa vermelha no guarda-fato onde arrumava frascos de vidro repletos de berlindes. Mas, aquilo a que Valter dava mesmo valor, era a uma visitinha, mesmo que rápida, a uma pessoa amiga. Quando o conseguia, ouviam-se os seus risinhos de contente em resposta a qualquer cumprimento ou comentário simpático. Eram tão gloriosos estes momentos que agigantavam a sua necessidade de andar, saltando de amigo em amigo, em busca de se sentir especial. E a todos chamava de amigos: o senhor do bar que lhe oferecia café, o cabeleireiro que o penteava com gel; a senhora da loja de perfumes que guardava amostras para ele, orgulhosamente, distribuir nas suas visitas; os motoristas dos autocarros que o deixavam tocar no volante, ou o João, seu colega de quarto, que lhe fazia a barba. E a muitos, muitos outros que Valter chamava pelo nome e lhe desenhavam sorrisos nos dias.

Mas todos eram poucos para saciar o seu desejo de ter uma família aonde pudesse ficar para sempre. Tinha amigos no lar, mas não era esse o seu sonho. A sua ambição era sempre a mesma e não parava de crescer: ficar sempre, sempre, sempre, na casa da tia Rosa e do tio Nuno. Quando lhe perguntavam porquê, Valter sabia dizer: na casa deles, quando ia de férias e fins de semana, Valter sentia-se uma pessoa igual às outras pessoas. Os tios e os primos até entendiam as suas piadas, e riam-se com ele. Isso era o que Valter mais gostava de fazer: fazer os tios e os primos rir. E ele, ali, sabia fazer rir, porque andava feliz.

A tia Rosa e todos sabiam pô-lo assim, feliz. Nem era preciso pedir, porque eles sabiam. Adivinhavam.
A tia adivinhava que Valter era feliz a tomar banho com muita água na banheira e com muito sabão para ficar muito tempo a fazer bolinhas de sabão de todas as cores, que até lhe pareciam berlindes a estalarem no ar.
O tio Nuno sabia como Valter era feliz a assobiar por um tubinho de bambú que o tio construíra e donde ele fazia músicas que punha todos a tapar os ouvidos, por graça. A tia Rosa deixava-o ser feliz a lavar a louça ou a apanhar a roupa do estendal, e até dizia piadas quando a roupa ficava com dobras esquisitas. Até o primo Gabriel deixava-o brincar com os carrinhos dele, sem medo, porque Valter brincava sempre devagarinho.

Valter ficava feliz, feliz, feliz, quando a tia arranjava tempo para lhe ligar o telemóvel e ele podia falar com os amigos. A conversa era sempre a mesma para todos:
– Olhe, é só para dizer que estou na casa da tia Rosa e do tio Nuno! – e dava uma gargalhadinha feliz, só porque estava mesmo feliz!

Mas quando a carrinha do lar chegava para o trazer de regresso, era o momento de Valter fazer a pergunta que impede o seu mundo de ser mesmo encantado:
– Porque não posso ficar na casa da tia Rosa e do tio Nuno para sempre?
Esta pergunta tinha sempre a mesma resposta que ele recebia como se fosse a primeira vez:
– No próximo fim de semana já vens. Está quase!
– Faltam muitos dias?
– Não, só os dias de uma mão!
– E depois eu venho?
– Sim, e depois tu vens!
E lá ia Valter, a olhar os dedos bem abertos da mão direita, para não se esquecer que depois daqueles dias, estaria de volta ao lugar do seu sonho, onde o seu coração ficava sem vazios e lhe segredava que ele era uma pessoa de verdade!