Hoje há 1. 500 milhões de muçulmanos no mundo, na sua esmagadora maioria alheios ao terrorismo que é feito em nome da religião que seguem
Hoje há 1. 500 milhões de muçulmanos no mundo, na sua esmagadora maioria alheios ao terrorismo que é feito em nome da religião que seguemEspanha é desde sempre apontada como território islâmico a reconquistar, seja pela al-Qaeda seja pelo ISIS. Mas agora Portugal já é percebido também como parte desse al-andalus que por volta do ano 1000 era das regiões mais desenvolvidas do mundo, terra de prosperidade e de tolerância religiosa. Da propaganda aos atos vai grande distância e mesmo que a ameaça jihadista seja muito vaga, as forças de segurança têm de estar atentas e preparadas para tudo, até para a chegada do terror a Portugal. O Estado Islâmico, também conhecido por ISIS ou Daesh, tem um grupo especial para preparar ataques terroristas em Espanha, revelou no início de julho o jornal madrileno aBC, baseando-se em informações dos serviços secretos do país vizinho. Para os jihadistas, Espanha é sinónimo de al-andalus, o território na Península Ibérica que os muçulmanos dominaram durante alguns séculos em torno do ano 1000. E existe uma verdadeira obsessão com a sua reconquista, mesmo que até agora não passe de mera propaganda para recrutar novos combatentes. as ameaças costumam surgir em vídeos que circulam na internet e ainda há semanas, num deles, um jihadista afirmava que os muçulmanos voltarão a povoar Córdoba, Toledo ou Játiva. al-andalus não és espanhol ou português, és o al-andalus muçulmano. a referência a Portugal como parte do al-andalus era rara, mas agora começa a ser frequente. a identificação com Espanha é natural, pois é no nosso vizinho que se encontram os principais monumentos de origem islâmica na Ibéria, como a torre Giralda em Sevilha, o palácio de alhambra em Granada ou a Catedral-Mesquita de Córdova. E se a presença muçulmana em Portugal terminou em 1249 com a conquista definitiva do algarve, já no território espanhol prolongou-se até 1492. Contudo, o facto de alguns portugueses se terem voluntariado para o ISIS, usando mesmo como novo nome árabe a designação de al-andalusi, atraiu a atenção e os jihadistas começaram a incluir Portugal no cobiçado al-andalus. O que implica novos riscos para o país. a seguir aos grandes atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos da américa, contra as Torres Gémeas de Nova Iorque e o Pentágono em Washington, o terror de inspiração jihadista elegeu Madrid como primeiro alvo na Europa. Bombas explodiram em simultâneo em quatro comboios que entravam na estação de atocha matando 191 pessoas. Foi a 11 de março de 2004 e sabe-se que o ataque foi organizado por uma célula local constituída sobretudo por imigrantes marroquinos mas inspirada pela al-Qaeda, o grupo fundado pelo saudita Osama bin Laden. Mas desde então, a Península Ibérica tem sido poupada. Os atentados de Londres em 2005 mostraram que a Grã-Bretanha também estava na mira da al-Qaeda e, depois da emergência do ISIS, liderado pelo autoproclamado califa abu Bakr al-Baghdadi, a França tem sido a nação da Europa Ocidental mais atacada. ainda em meados do mês passado, um camião conduzido por um tunisino acelerou sobre uma multidão que celebrava em Nice a festa nacional francesa matando mais de 80 pessoas. O ISIS reivindicou o atentado, mesmo que se suspeite que não teve envolvimento logístico, apenas foi fonte de inspiração. Também a Bélgica foi atacada já este ano. E há ainda nos últimos tempos que referir, apenas no contexto europeu, o avião russo abatido sobre o Egito e o grande atentado ao aeroporto ataturk em Istambul, na Turquia. São menções agressivas que há que ter em conta no momento de avaliar em conjunto a ameaça do terrorismo jihadista, considerou em entrevista ao DN Fernando Reinares, o maior perito espanhol em terrorismo, referindo-se à obsessão do ISIS agora, e da al-Qaeda antes, com os países ibéricos. Desde 2004, os serviços de segurança espanhóis tiveram de adaptar-se à nova ameaça terrorista, depois de décadas a lutar contra os independentistas bascos da ETa. Mas quanto a Portugal é uma incógnita saber se o país se tem preparado para lidar com grupos terroristas interessados em atacar o território nacional. De certeza que há partilha de informações com os espanhóis e outros europeus para prevenir infiltrações de terroristas. É que a nível interno, a comunidade islâmica portuguesa parece bem integrada e pouco apta a radicalismos. Que os jihadistas considerem Portugal um alvo mais fácil do que a Espanha não é de descurar. E podem sempre procurar nos livros de história razões de queixa contra os portugueses. No seu livro O Ocidente e o Islão’, publicado no ano passado, o ensaísta Jaime Nogueira Pinto admitia um historial de conflito entre Portugal e o mundo islâmico. Em entrevista ao DN afirmou mesmo que está muito presente na história de Portugal a luta com o Islão, dando como exemplos desde a conquista de Lisboa em 1147, as batalhas em Marrocos depois da tomada de Ceuta em 1415 e ainda os planos no século seguinte de afonso de albuquerque para atacar Meca, a mais sagrada cidade para os muçulmanos, hoje 1. 500 milhões no mundo, na sua esmagadora maioria alheios ao terrorismo que é feito em nome da religião que seguem. Jaime Nogueira Pinto percebe o fascínio dos jihadistas pelo al-andalus, pois estamos a falar do período de maior extensão do poder muçulmano, um século depois de Maomé. até serem parados em Poitiers. E o califado espanhol que nasce dessa expansão tem um grande significado cultural, de luxo, de requinte. Torna-se um mito, como o grande califado de Bagdad, que surge nas “Mil e Uma Noites”. acrescenta ainda que é evidente que hoje em dia os que reclamam o califado, o regresso a uma antiguidade ideal e forte, insistam nessas memórias. Também numa entrevista ao DN, em setembro de 2015, quando ainda era ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete referia o al-andalus como uma ideia de vez em quando ressuscitada numa certa literatura árabe, mas não lhe dava fundamento especial como ameaça. Temia, isso sim, a ação de algum terrorista em Portugal, mesmo isolado, os tais lobos solitários, aludindo à dezena de portugueses ou luso-descendentes que se sabe terem viajado até à Síria e o Iraque para integrarem as fileiras do ISIS. Na internet circula um mapa do futuro califado, que não se quer limitar a Raqqa e Mossul. E Espanha e Portugal lá surgem. Também foram detetadas pela imprensa espanhola fotografias ou fotomontagens com imagens de monumentos islâmicos e da bandeira do ISIS, como o palácio da aljaferia, em Saragoça. Tudo pode não ir além da propaganda, mas é preciso estar atento, sobretudo por causa da insistência no tema. afinal já lá vão 15 anos desde que pela primeira vez o al-andalus foi percebido na retórica jihadista. aconteceu em outubro de 2001 numa mensagem vídeo do egípcio ayman al-Zawahiri de apoio aos palestinianos. E foi divulgada pela cadeia televisiva al-Jazeera, do Qatar: O mundo tem de saber que não permitiremos que se repita na Palestina a tragédia de al-andalus. al-Zawahiri é desde a morte de Bin Laden em 2011 o líder da al-Qaeda, rival estratégico do ISIS mas coincidente no objetivo de criar um neocalifado à escala global.