Os medos que por vezes o faziam dizer em segredo «não consigo» voltaram com nova intensidade: não conseguia sequer pensar. Deixava os trabalhos por fazer ou fazia-os sem qualidade
Os medos que por vezes o faziam dizer em segredo «não consigo» voltaram com nova intensidade: não conseguia sequer pensar. Deixava os trabalhos por fazer ou fazia-os sem qualidadePaulo representava segurança para a família. Precisavam dele para manter rentável a exploração agrícola – era Paulo que, às cinco da madrugada vendia os morangos no mercado. assegurava a contabilidade e os contactos com fornecedores e com os técnicos da estufa. acumulava tudo isto com o curso de engenharia agrícola. Nunca se queixava, mas o cansaço ia-se acumulando: o sono, os momentos de lazer estavam comprometidos. agora, o curso estava a chegar ao fim. Para toda a família ele era motivo de um orgulho imenso: era o primeiro a fazer um curso superior. Paulo sabia-o e não se permitia dececioná-los. Queria tanto compensar os seus esforços que não se dava ao direito de ter dificuldades. a exigência que se impôs a si mesmo fazia a ansiedade disparar à medida que os últimos exames se aproximavam. Os medos que por vezes o faziam dizer em segredo não consigo voltaram com nova intensidade: não conseguia sequer pensar. Deixava os trabalhos por fazer ou fazia-os sem qualidade. Estava a prejudicar os amigos do seu grupo de trabalho, Sara, Carlos e Nélia, com quem partilhava o estudo e os trabalhos práticos. Os três amigos perceberam o estado de Paulo e decidiram intervir.começaram com uma conversa direta:- Paulo, sabes que somos teus amigos e que os amigos não querem ficar de fora na hora das dificuldades?- Que tipo de conversa é esta? a canção do coitadinho?- Não! (impôs-se o Carlos) – É a conversa de quem também tem medos, mas que sabe que podemos contar uns com os outros. É impressão nossa ou estás a deixar-te ficar para trás? Se é isso, queremos dizer-te que chegámos juntos até aqui, e assim continuaremos até concluir o que falta. Todos, sem exceção!- Nem tentem. Já estou muito atrasado. Só iriam prejudicar-se e eu nunca me perdoaria. Não consigo pensar, não consigo concentrar-me. Só me apetece ir para a estufa tratar dos morangos. -Só precisamos organizar-nos e dividir trabalho. Olha, falaste em morangos? Ótimo! Nós ajudamos na pesquisa e tu pagas-nos com morangos. – Não sei se quero: vocês são tão comilões que ainda põem a família na miséria. Os quatro amigos ficaram ali, planeando, chorando e rindo, dizendo piadas para disfarçar as angústias e aproveitar os momentos reparadores que a amizade fazia acontecer. Nesse dia, Paulo conseguiu adormecer sem insónias. Sentia-se novamente capaz de tudo. Quanto agradecia ter amigos atentos, capazes de acertar o passo com ele, puxando-o para que ele não ficasse para trás. Quererem ouvir os seus medos, e em conjunto definirem um plano de ação viável, permitiu a Paulo readquirir a confiança que o fazia ser capaz de lutar pelos seus sonhos. Insistiria até conseguir, não só pela família, mas pelos amigos também – e, afinal, por si mesmo! Porque era isto que queria e para isto se esforçava. O ano chegou ao fim. Nas pautas finais, lia-se o nome dos quatro amigos na coluna dos finalistas. Foram em grupo ver os resultados. a alegria não tinha medida: saltos, abraços, tudo expressava a felicidade da vitória conseguida. Este êxito, deixou gravada na história de cada um deles o Diploma da amizade.