Não há fé sem consequências na vida praticada e partilhada. Não faz sentido sem a corresponsabilidade. Seria um equívoco
Não há fé sem consequências na vida praticada e partilhada. Não faz sentido sem a corresponsabilidade. Seria um equívocoDizer a misericórdia é uma tarefa difícil, talvez impossível. Poderemos sondar os caminhos onde a misericórdia se faz, porque, nascendo num Deus que se espera, a misericórdia ganha expressão prática no homem que Procura.como a justiça, a misericórdia revela-se na ação. Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia. a misericórdia é uma libertação do isolamento, da solidão. Benevolência, bondade e compaixão surgem em quase todos os contextos éticos ou religiosos. E sem a permanência e a urgência do outro, a fé cristã é um equívoco. Não há fé sem consequências na vida praticada e partilhada. Não faz sentido sem a corresponsabilidade. Seria um equívoco. O indivíduo é um somatório de contextos e de relações. Ser humano é viver a essência da relação. Um Eu a caminho de um Tu, para fazer um Nós. E é neste Nós inevitável que Deus se revela, na intimidade da relação. Pode estar antes, mas revela-se em relação. Ninguém pode ter uma relação com Deus se não tiver uma relação com os outros. Uma relação de coração, uma relação de intimidade. Ser com’ e para’. O grande desafio é o outro e a sua intrínseca dignidade, antes da condição de ser. Um Deus de misericórdia, que se revela pelo homem, tem coração, faz relação, é capaz de comover e de se comover. De ceder para facilitar o encontro e reconstruir.como diz frei Fernando Ventura, se o Deus de misericórdia é um Deus com tripas, então a misericórdia só pode significar que temos de fazer das tripas coração para ir ao encontro do outro. a felicidade é um caminho construído com o outro e não há como não reconhecer que, sem o outro, nada somos. Ter misericórdia não é dar esmola, eternizando a carência do outro. É entrar na carência do outro até que esta se torne a nossa debilidade insuportável. até que a carência do outro seja a nossa carência. as “obras de misericórdia” indicam um percurso revolucionário – amarás o teu próximo como a ti mesmo. as denominadas “obras espirituais” agarram por dentro, encostam o indivíduo à parede. as “obras corporais” exigem uma hermenêutica para o exterior, estão de saída. Diz o Papa Francisco que justiça e misericórdia são duas dimensões duma única realidade. a misericórdia é operativa, não é teórica. Se a misericórdia faz a (re)construção do outro, implica a justiça. Por isso não se diz, ou melhor, diz-se quando se faz, na construção ética, no exercício da justiça e da paz com um inquestionável enquadramento político e comunitário. Texto conjunto MissãoPress