O presidente executivo do BPI, Fernando Ulrich, já havia dito que Portugal aguentaria ainda mais austeridade. Numa comparação revela agora o pensar e a insensibilidade dos poderosos perante a miséria do povo português
O presidente executivo do BPI, Fernando Ulrich, já havia dito que Portugal aguentaria ainda mais austeridade. Numa comparação revela agora o pensar e a insensibilidade dos poderosos perante a miséria do povo portuguêsNesta semana em que o Eurostat (gabinete oficial de estatísticas da União Europeia) divulgou a última taxa de desemprego (16,5%), a mais alta de sempre em Portugal, as palavras do banqueiro são motivo de reflexão. O grande capital, representado pelas entidades bancárias, foi dos mais responsáveis pela crise com que nos debatemos, sendo agora também dos mais beneficiados. O exemplo vem do próprio Banco Português de Investimento (BPI) que apresentou lucros no ano findo de 249ME. Quando os bancos conseguem atingir grandes lucros na sua gestão é sinal que o dinheiro está em transferência, ou seja, saiu dos bolsos dos outros para os cofres da banca. Daí tais afirmações valerem o que valem. No entanto, acrescentam ainda mais à revolta de quem vive as inúmeras dificuldades do dia a dia.
O desemprego é apenas uma consequência da atual crise, mas dada a sua importância na vida das famílias e das pessoas, deve ser devidamente considerada. Nem o Governo (como um dos maiores empregadores) tem feito tudo o que poderia para impedir o aumento contínuo do desemprego, nem os sindicatos e centrais sindicais tem contribuído para o seu abaixamento. a fatia de maior responsabilidade é mesmo do Governo, tal como as entidades europeias o têm dado a entender, ao afirmarem que o executivo pode escolher as políticas a adotar (por exemplo cortando mais na despesa). as reformas de todo o aparelho de Estado está por fazer, apesar de ser uma exigência da troika, o que dificulta a gestão eficaz no sentido da organização e poupança de gastos públicos, obrigando a uma maior cobrança de impostos e taxas.
O aumento do desemprego é, em muito, derivado da falta de uma economia robusta, mas também da ausência de responsabilidade dos sindicatos na defesa (?) dos trabalhadores não apenas do setor público, como privado. Os sindicatos estão subordinados a correntes partidárias ou de grupo e isso impede uma visão de conjunto dos problemas que se apresentam aos trabalhadores na sua globalidade. É comum a utilização da greve enquanto forma de luta, mesmo que prejudicando outros trabalhadores (veja-se o setor público, transportes e outros), não respeitando o princípio de que essa deve ser a última forma de luta, quando já estão esgotadas todas as hipóteses de diálogo.
Em relação especificamente às centrais sindicais, e referimo-nos às duas mais poderosas CGTP e UGT, cada uma tem a sua visão dos problemas laborais. O mal da questão reside na politização de que enfermam ideologicamente, caso mais notório na CGTP, dadas as suas ligações ao Partido Comunista Português (PCP). Em determinados casos é difícil distinguir entre as opções do trabalhador e do partido, no caso dos comunistas. Mas o mais nocivo para os trabalhadores, e para o país, são as inúmeras greves que são feitas (grande parte sem razão para tal), que custam muitos milhões à economia portuguesa. Será que os responsáveis sindicais não querem perceber que estão a contribuir para arruinar os trabalhadores e o país?
Mas voltemos ao ponto de partida. a atuação dos grandes grupos económicos é exclusivamente norteada pelo lucro, ostracizando as pessoas que, na essência, são aqueles que lhes permitem os ganhos. Para evitar essa situação de desmando é obrigação do Estado regular a ação de todos os intervenientes económicos. as falhas tem sido graves, basta olhar para o caso do Banco Português de Negócios (BPN). É preciso criar uma cultura de responsabilidade a todos os níveis, exigindo responsabilidades criminais àqueles que prevaricam por omissão ou dolo. Há países onde isso já aconteceu ou está a suceder, por isso não tenhamos medo de exigir competência e seriedade àqueles que nos governam.