Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, continua a ser uma voz incómoda para o poder. a prova disso está na entrevista que o prelado concedeu ao Jornal de notícias (JN) publicada no dia de Natal
Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, continua a ser uma voz incómoda para o poder. a prova disso está na entrevista que o prelado concedeu ao Jornal de notícias (JN) publicada no dia de NatalSendo uma personalidade incontornável, dada a sua permanente preocupação social – a tal ponto que chegaram a apelidá-lo de bispo vermelho – as suas palavras são escutadas por uns e ignoradas por outros, mas poucos ficam indiferentes ou incólumes ao seu eco. Manuel Martins não tem medo das palavras e muito menos de dizer a verdade, mesmo ferindo suscetibilidades, especialmente quando aborda os problemas dos mais desfavorecidos. Foi assim outrora e continua a ser hoje. Da longa conversa que manteve com os jornalistas do JN, vamos abordar alguns aspetos que consideramos mais interessantes e oportunos, tais como a governação e a posição da Igreja perante a crise atual que vivemos. Eu acho que tudo o que é governar é muito difícil, até o governo de uma casa. Parece-me também, isto com todo o respeito, que realmente (os governantes) não estão à altura do momento. É assim que o bispo define o seu pensamento em relação ao modo como os responsáveis estão a dirigir este país. Mas elucida o porquê, comparando a um condutor. Imaginemos que o Governo é uma espécie de condutor que conduz a vida do país, disse o prelado. assim como para tirar a carta de condução, temos que ir ao médico, antes de ser nomeado, antes de aceitar esse encargo de governar, um ministro havia de ir a uma junta de especialistas independentes que fosse capaz de avaliar as capacidades dessa pessoa para governar. Considerando que há falta de experiência e capacidade dos governantes atuais, aponta a ausência de diálogo com os parceiros da oposição e ainda mais grave, a inexistência de uma pedagogia governativa na relação com os governados, na relação com o povo, que somos todos nós.
Referindo ainda que eles (os que nos governam) nunca terem experimentado o que é ser pobre, compara Portugal a um indivíduo que caiu num poço muito fundo e já nem sequer tem dinheiro para comprar a corda para sair de lá. Parece uma imagem ridícula, mas tem muito de verdade. Desafiado a dizer que governo nomearia (se tivesse esse poder) respondeu: Um governo de pessoas competentes, que soubessem governar. Julgo que os haverá em Portugal.
Manuel Martins foi confrontado com as estatísticas do INE que referem haver dois milhões de pobres. Estes sobem para três milhões, se contabilizarmos aqueles que ganham menos de 500 euros, em oposição ao aumento de 33 por cento das fortunas dos 100 mais ricos. Sobre estes dados opinou: Sempre disse, porque lia, que um terço da população vivia abaixo do nível da pobreza. Se era assim, agora será muito pior. Recordou ainda a sua estadia em Setúbal no rescaldo da revolução, afirmando: Eu tive a graça de entender que a minha missão episcopal passava sobretudo por ali, complementando com a importância de ter um bispo na catedral, mas também o é ter um bispo no meio do campo, no meio da praça, a defender as pessoas que estão a ser injustamente agredidas.
Manuel Martins entende que a Igreja deve ser a grande provocadora da sociedade. Jesus Cristo foi. E ela está a ser? Ora bem Com toda a franqueza e com toda a verdade, acho que a Igreja está atrasada, não tem prestado atenção a esta transformação do mundo. Ela tem que despertar as pessoas para estas realidades (o domínio endeusado de uma filosofia económica que impera sobre o mundo como uma religião fanática) e, ao mesmo tempo, denunciar estas situações. Não basta dar pão a quem tem fome; temos que descobrir as causas dessa fome. Será que a Igreja está a cumprir cabalmente o seu papel na sociedade em que vivemos? Respondam os responsáveis, pois estamos convictos que ainda há muito a fazer, começando por cada um de nós e convém não esquecer que nós é a Igreja no seu todo.