é difícil o silêncio. O mundo é uma vertigem, um cúmulo de vozes e ruí­dos que facilmente se sobrepõem às conversas e perturbam os verdadeiros encontros. as pessoas caminham de phones nos ouvidos e olhar a direito. aquele olhar que tantas vezes atravessa o
é difícil o silêncio. O mundo é uma vertigem, um cúmulo de vozes e ruí­dos que facilmente se sobrepõem às conversas e perturbam os verdadeiros encontros. as pessoas caminham de phones nos ouvidos e olhar a direito. aquele olhar que tantas vezes atravessa oacontece-nos frequentemente sentir a grande ausência de Deus, o grande silêncio que não é um exclusivo da Madre Teresa de Calcutá, nem de descrentes ou céticos. Falo do silêncio que nos magoa e atordoa, mas também nos interpela porque obriga a fazer mais perguntas e a dar mais passos. a procurar as respostas em nós e à nossa volta. O diálogo com os grandes mestres é muitas vezes feito de longos silêncios e quando tudo isto fica plasmado no cinema, em filmes que nos tocam, não nos custa perceber o papel do mestre e do discípulo, mas na vida real e nesta intimidade de oração com um Deus que nem sempre nos responde, nem sempre nos dá sinais de nos ter ouvido, tudo se torna mais complexo. E porventura indecifrável. E, no entanto, é no silêncio que podemos interpretar o sentido das vozes, dos gestos, dos acontecimentos, da vida quotidiana. E é no silêncio que percebemos melhor os milagres (não a magia!) que Deus faz em nós e nos transformam. aprendi a observar esses mesmos milagres conferindo a vida para trás, olhando e vendo como estava há um dia atrás, há uma semana, há um mês, um ano comparando com o presente e perspetivando o futuro.compreendo cada vez melhor que Deus se mantenha em silêncio e nos fale através dos outros, nas relações que vamos construindo, nos laços que vamos tecendo, nas prioridades que vamos estabelecendo.comecei a gostar desta intimidade do silêncio de um grande amigo que me ouve e guia, que me ama e nunca desiste de mim, que me perdoa e acolhe sempre, que conta comigo, tem paciência e tempo. acho que é isto que Deus faz connosco: dá-nos inteira liberdade para pensar e agir, para concordar e discordar, para partir e chegar, enfim para progredir na intimidade da oração, para evoluir no silêncio e nos ruídos. Gosto de um Deus assim, que é amigo, Pai e Mestre, que não tem a tentação de me encurtar caminhos nem de me poupar a sofrimentos, provações e crises, porque sabe que é também através das perdas e do que é difícil que nos superamos, que nos transcendemos, que nos tornamos mais fortes e vamos mais longe. Tolentino de Mendonça diz numa das suas orações que nenhum coração é tão inteiro como um coração partido e esta frase faz eco em mim desde a primeira vez que a rezei. Seja o que for que nos parte o coração ou quebra a casca do nosso entendimento’ (como diz Khalil Gibran, n’O Profeta), é sempre oportunidade de crescimento. Sempre que o silêncio de Deus me perturba ou interpela com mais intensidade, tento ler os acontecimentos à luz da Quaresma (pois não será toda a nossa vida, em si mesmo, uma grande Quaresma?) até conseguir chegar ao silêncio de Jesus na cruz, e de Sua Mãe aos pés do Filho crucificado. E é quando aterro nesse silêncio, nesse derradeiro sopro de vida, que sinto que Ele me fala.