a frase é de Václav Havel, escritor e dramaturgo que foi o último presidente da Checoslováquia e o primeiro presidente da República Checa, falecido recentemente. Este político enunciava desta forma a actual crise do homem com o divino
a frase é de Václav Havel, escritor e dramaturgo que foi o último presidente da Checoslováquia e o primeiro presidente da República Checa, falecido recentemente. Este político enunciava desta forma a actual crise do homem com o divino”Vivemos na primeira civilização ateia, por outras palavras, numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade”, disse Václav Havel na abertura da 14. a Conferência do Fórum 2000, em Praga, e repetiu uma série de vezes, como recordou Jorge almeida Fernandes, num artigo do “Público” recentemente. O estadista pretendeu abarcar a realidade europeia e mesmo mundial. Interessante a sua consonância com Marcel Gauchet, que afirmou em 2004 que o séc. XXI se anunciava como “o século da marginalização social e política do cristianismo”. Isso já acontece na Europa, a qual, “neste ponto, anuncia o futuro” referiu o filósofo francês.
Citando novamente Gauchet, que é agnóstico, não sobre a sociedade, mas sobre a democracia numa sociedade pós-cristã: “O que ameaça a democracia, hoje, é o vazio, a futilidade, o esquecimento, a facilidade, o curto prazo, a superficialidade. as religiões e o cristianismo, em particular, têm o sentido do essencial, do trágico, do mistério da aventura humana, todas as coisas que a democracia facilmente ignora. Elas podem ser decisivas para a democracia”. É esta a realidade com que se defronta a comunidade global: a tentativa de afastar Deus da vida dos povos, mesmo sabendo como são fúteis as razões invocadas para o fazer.
Voltemos ainda à ideia de Havel: “O Ocidente democrático perdeu a capacidade de proteger e cultivar os valores que não cessa de reclamar como seus. O pragmatismo dos políticos que querem ganhar eleições futuras, reconhecendo a vontade e os humores duma caprichosa sociedade de consumo, impede esses mesmos políticos de assumirem a dimensão moral, metafísica e trágica da sua própria linha de acção. Uma nova divindade tende a suplantar o respeito pelo horizonte metafísico da vida humana: o ideal de uma produção e de um consumo”. Havel não se considerava crente – “sou apenas meio crente” -, mas estava convencido de que “há um ser, uma força velada por um manto de mistério”. “É o mistério que me fascina”.
O pensamento destes dois homens perfeitamente distintos, devem fazer-nos reflectir. De facto não podemos afastar Deus das nossas vidas, da nossa sociedade, isto por mais que os homens tentem concertar meios e políticas nesse sentido. Se tudo quanto fazemos tem implicações na nossa vida presente e no futuro, há que ter a humildade que Havel demonstrava, com grandeza e de formas nítida, no sentido de que a política precisa de legitimidade que a transcende. E essa autenticidade corresponde exactamente aos valores éticos e espirituais de que a nossa sociedade tanto está carecida e que forças políticas hostis teimam em não aceitar e muito menos incentivar, apesar de ser tão importante para o ser humano. Que o Deus Menino conceda a cada um de nós a clarividência necessária para acolher em nosso coração a vontade do Divino.