A Rússia criou e alimenta “vastas redes de recrutamento” em diferentes países africanos com o fim de angariar “carne para canhão” na sua guerra contra a Ucrânia. Mais de 300 jovens caíram já na frente de batalha, segundo conclusões de um estudo da agência suíça de investigação Inpact, recentemente divulgado.
O recrutamento ter-se-á intensificado a partir de 2023, um ano depois do início da guerra da Ucrânia, e será uma consequência de falta de jovens que possam substituir os militares russos que caem em combate. A angariação faz-se através de anúncios em redes sociais, de influenciadores e mesmo de agentes de viagens e de anúncios de bolsas de estudo que se vêm a revelar, mais tarde, serem um logro.
A Inpact (de Investigation with Impact) apurou que, só entre janeiro de 2023 e setembro de 2025, mais de 1.400 africanos de 35 países assinaram contratos com as forças armadas da Federação Russa. Esse número inclui 316 que foram dados como mortos pouco depois de serem enviados para a linha da frente.
Os dados foram conseguidos através de dois ficheiros obtidos pela Inpact de fontes governamentais de inteligência ucranianas. Essa agência afirma, no seu site, que “investiga e desmantela redes ilícitas e secretas envolvidas em atividades que ameaçam a segurança global, a integridade humana e a integridade da informação”, recorrendo a “metodologias de investigação tradicionais e tecnológicas, redes de pares e organizações e campanhas”. O projeto no âmbito do qual este estudo foi realizado está focado na monitorização do grupo paramilitar Wagner.
Os jovens de que há registo (poderão ser muitos mais) foram recrutados na base de promessas de boas condições de vida na Rússia, não lhes sendo, em diversos casos, sequer dito claramente que o trabalho objeto de contrato poderia ser a prestação de um serviço militar. Para agravar a situação, foram identificados numerosos casos em que a ida para a frente de combate não foi antecedida de qualquer tipo de preparação ou treino.
Segundo a instituição que trouxe o assunto para o espaço público, os governos de alguns dos países de maior recrutamento já se haviam apercebido do que estava a passar-se, mas temiam denunciar o comportamento das autoridades russas. Foi “a crescente pressão de famílias e organizações comunitárias que buscam respostas para o desaparecimento de seus entes queridos”, bem como “vídeos chocantes de combatentes africanos prisioneiros de guerra”, que fizeram aumentar a pressão pública, forçando vários governos a agir.
“O que antes era objeto de silêncio diplomático tornou-se agora [com a publicação do relatório] uma questão de política externa claramente definida: nomes, números de serviço militar e registos estão todos documentados”, refere um recente texto da Inpact.
No caso do Gana, por exemplo, com 270 jovens documentadamente recrutados, 55 dos quais mortos, o governo prometeu desmantelar as redes de recrutamento no país e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros foi a Kyiv, em finais de fevereiro, apelar à libertação de prisioneiros de guerra ganenses.
O caso do Quénia é também revelador. Quando os resultados desta investigação foram publicados, a embaixada da Federação Russa no país contestou dizendo que se tratava de fake news. Mas a Inpact diz ter recebido, nas semanas seguintes, numerosos contactos diretos quer de recrutas quer de familiares de desaparecidos. E quando o assunto foi debatido no parlamento, surgiu um relatório de inteligência, que apontava para aproximadamente mil cidadãos quenianos enviados para a frente de batalha.
Uma das vias de captação de pessoas para combater era recrutá-las já no estrangeiro, eventualmente em situação de fragilidade, atraí-las para dentro do território russo, colocá-las em situação irregular e, a dado momento, dar-lhes a escolher entre a expulsão e o serviço militar.
Os Camarões, um dos países com mais jovens que rumaram à Rússia, na tabela de nacionalidades das listas obtidas pela Inpact, terá assistido mesmo a um fenómeno de deserções do seu próprio exército. Por sua vez, o Egito lidera essa mesma lista com 361 jovens recrutados desde 2023 e 52 mortes confirmadas – mas dada a dependência que o país tem da Rússia quanto a fornecimento de cereais, tem dificuldade em verbalizar publicamente as suas críticas. Daí a agência observar que é o país que “possui o maior contingente e o silêncio oficial mais calculado”.
Com a saída do relatório e das listagens nominais dos recrutados e dos mortos, abriu-se para as respetivas famílias um verdadeiro calvário, na tentativa de recolher informação que possa vir a permitir recolher vestígios e, desejavelmente, identificar e transladar os corpos. É que – salienta a Inpact – a Rússia “trata os seus recrutas estrangeiros como contratados de segunda classe, não abrindo nenhum processo sem que haja comprovação de um número de identificação militar ou comunicações geolocalizadas.
O acesso aos milhares de dólares americanos para os familiares previstos nos contratos assinados, nos casos de morte ou invalidez é virtualmente impossível, visto que a parte russa exige aos beneficiários africanos a apresentação de uma certidão de óbito reconhecida por ambos os Estados.
Apoiando-se nas listagens e em investigações complementares, a agência Inpact concluiu que o fenómeno de recrutamento de jovens oriundos de África “não constitui um epifenómeno isolado, mas antes a espinha dorsal de uma estratégia deliberada e organizada”.
Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.








