Vinte e seis dias após a depressão Kristin cerca de 1800 pessoas ainda continuavam sem energia elétrica devido aos danos provocados pela tempestade na madrugada de 28 de janeiro, que afetou, de forma particularmente violenta, os distritos de Leiria, Santarém e Coimbra. A depressão destruiu habitações, obrigando muitos a abandonar as suas casas. Aqueles que escolheram permanecer nas residências afetadas, mas sem as reparações necessárias, sofrem agora com os efeitos dos estragos, nomeadamente com a entrada de chuva através do telhado.
Além da destruição total ou parcial de casas, a depressão Kristin provocou danos em produções agrícolas, empresas e equipamentos e levou à queda de árvores e de estruturas. Foi necessário proceder ao fecho de estradas, escolas e serviços de transporte. A falta de água também afetou milhares de pessoas. Perante um cenário de catástrofe, ergueu-se uma onda de solidariedade. Vizinhos e familiares entreajudaram-se, emigrantes regressaram à terra natal para reparar os danos, e a sociedade mobilizou-se para apoiar as vítimas, através de serviços voluntários e doações de alimentos, vestuário, dinheiro e outros bens. Centenas de voluntários participaram em ações de limpeza em diversos locais afetados. Escolas, ginásios, empresas e alguns estabelecimentos comerciais permitiram que as vítimas pudessem tomar banho e carregar os dispositivos eletrónicos nos seus espaços. Foram criadas campanhas de angariação de fundos e plataformas digitais de entreajuda.
À semelhança de outros organismos, também a Igreja se mobilizou para ajudar as vítimas da intempérie. O Santuário de Fátima foi afetado pela tempestade – perdeu mais de 500 árvores – e mobilizou-se para levar ajuda às vítimas, colocando o seu Centro de Acolhimento de São Bento Labre à disposição dos bombeiros de diferentes partes do país, que se mobilizaram para apoiar a Proteção Civil da região. O espaço destinado aos peregrinos que chegam a pé para as grandes peregrinações acolheu cerca de 160 operacionais.
A Cáritas Diocesana de Leiria – para onde o Santuário de Fátima enviou 280 cobertores e variados bens alimentares – trabalha agora em articulação com diversos municípios afetados e criou meios para que as pessoas possam pedir ajuda, fazer donativos e tornarem-se voluntárias. Até ao passado dia 9 de março, o “Fundo de emergência social – Tempestade Kristin”, promovido pela Cáritas de Leiria, já ultrapassava os 2 milhões de euros.
O núncio apostólico em Portugal, Andrés Carrascosa Coso, foi ao encontro de populações afetadas. “Fico impressionado pela resiliência deste povo. Vi alguns lugares que já foram reparados e fiquei realmente impressionado”, referiu. O responsável deslocou-se também ao Seminário Diocesano de Leiria, onde visitou o centro de operações instalado por bombeiros, forças de segurança e voluntários. “Gostei muito de ver o trabalho das forças armadas, da Cáritas, das empresas privadas, dos voluntários, toda a gente a trabalhar junta. Criou-se um espírito impressionante”, disse o núncio, citado pelos serviços de comunicação da diocese de Leiria-Fátima.
A mobilização solidária foi também destacada pelo bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas. “Este centro de solidariedade dá-nos bem a dimensão do drama e das necessidades das pessoas, mas também dá uma perspetiva da vaga de solidariedade que tem percorrido o país e não só, também no estrangeiro”, disse o responsável à mesma fonte.
Com o propósito de levar internet às pessoas sem telecomunicações, a Cáritas Diocesana de Leiria-Fátima instalou um sistema Starlink numa das suas carrinhas de apoio, fruto de uma parceria com uma empresa e com a Cáritas de Lisboa. A iniciativa permitiu levar “cerca de uma hora de ligação” a cada localidade sem comunicações. Para reunir fundos destinados à reconstrução de igrejas destruídas pela tempestade, a fundação Ajuda à Igreja que Sofre lançou uma campanha. Segundo esta instituição, os donativos serão usados para reconstruir igrejas e capelas danificadas, restaurar edifícios paroquiais e apoiar as comunidades afetadas.








