Um idoso palestiniano caminha no meio dos escombros em Khan Younis, Faixa de Gaza. Foto © 2024 UNRWA

Os idosos em Gaza estão a sofrer uma crise de saúde física e mental, devido ao bloqueio contínuo de auxílio e medicamentos essenciais por parte de Israel e à recente proibição da presença de organizações humanitárias no terreno. E esta crise “sem precedentes” está a ser “negligenciada”, revela uma nova pesquisa da HelpAge International e da Amnistia Internacional (AI).

De acordo com a investigação, cujos resultados foram divulgados esta quinta-feira, 5 de fevereiro, em comunicado enviado pela AI às redações, muitos dos idosos que (sobre)vivem em Gaza têm saltado refeições, nomeadamente para garantir que outros membros da família possam comer, enquanto outros se veem obrigados a racionar medicamentos para condições de saúde graves devido à falta de acesso aos mesmos.

“Durante os conflitos armados, as necessidades dos idosos são frequentemente ignoradas. Em Gaza, estão a sofrer um colapso físico e mental sem precedentes, como resultado direto das condições de vida deliberadamente impostas por Israel, com o objetivo de causar a destruição física dos palestinianos em Gaza”, afirma Erika Guevara Rosas, diretora sénior de Investigação, Advocacy, Políticas e Campanhas da Amnistia Internacional, citada no comunicado.

“O inquérito da HelpAge International revela como as restrições ilegais, cruéis e desumanas impostas por Israel à entrada de ajuda humanitária têm afetado a capacidade dos idosos de aceder a cuidados de saúde e medicamentos essenciais, e limitado o seu acesso a alimentos nutritivos e a abrigos adequados”, reforça.

Erika Rosas alerta ainda que, apesar do cessar-fogo, “muitos continuam a sofrer condições de vida degradantes e uma situação humanitária desesperada, na sequência da destruição das suas casas e de repetidas deslocações” E defende que “as autoridades israelitas devem levantar imediata e incondicionalmente o seu bloqueio, permitindo a entrada sem entraves de suprimentos essenciais, incluindo medicamentos e materiais para abrigos”.

O relatório da HelpAge International, intitulado Pushed Beyond Their Limits: The survival of older people in Gaza (Empurrados para além dos seus limites: a sobrevivência dos idosos em Gaza), tem por base entrevistas a 416 idosos na região.

A pesquisa concluiu que a maioria dos idosos vive numa privação extrema de abrigo – 76% dos inquiridos vivem em tendas, muitas vezes superlotadas – e que a deslocação tem sido constante e desestabilizadora – 79% foram deslocados mais de três vezes desde outubro de 2023, o que perturbou o apoio familiar e aumentou o isolamento.

Além disso, apesar da elevada prevalência de dores e doenças crónicas nesta população, o acesso a
medicamentos é extremamente limitado, com 42% a conseguir obtê-los apenas “às vezes” e 18% “raramente” e cerca de 68% dos inquiridos a terem reduzido ou interrompido o seu tratamento devido à falta de stock.

Quanto à insegurança alimentar, é grave e pode ser fatal: embora metade dos inquiridos tenha afirmado que o acesso à assistência ficou mais fácil desde o cessar-fogo, 11% ainda não tinham feito nenhuma refeição nas últimas 24 horas e 48% reduziram a sua própria ingestão para garantir que outros pudessem comer.

A tensão na saúde mental é grave e afeta diretamente a nutrição: 77% afirmaram que a tristeza, a ansiedade, a solidão ou a insónia reduziram o seu apetite e afetaram o seu bem-estar. Estas conclusões foram corroboradas pela investigação da Amnistia Internacional, que incluiu entrevistas com 12 idosos de todas as regiões da Faixa de Gaza ocupada que permanecem em tendas em campos de deslocados internos (IDP) na área de Zawayda, onde as condições de vida são extremamente difíceis.

A situação agravou-se particularmente nestes meses de inverno, com os palestinianos a terem ainda de lidar com esgotos transbordantes, inundações, e ventos fortes. De acordo com dados do Ministério da Saúde palestiniano, citados pela Amnistia Internacional, no início de dezembro de 2025, 4.813 idosos tinham sido mortos em Gaza, desde outubro de 2023, embora este número não incluísse mortes indiretas devido à destruição de infraestruturas de saúde, por exemplo.

Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

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