Um aluno de uma escola católica na Nigéria reencontra a família após ter sido sequestrado. Foto: Direitos reservados, via Vatican News

A comunidade cristã do estado de Kaduna, no norte da Nigéria, mal tinha respirado de alívio pela libertação de um padre raptado há dois meses, quando um novo ataque perpetrado por bandos armados a duas igrejas daquela mesma região terminou com o sequestro de mais de 160 cristãos. Tudo aconteceu no último domingo, 18 de janeiro, avança o portal de notícias do Vaticano.

De acordo com os depoimentos recolhidos, os agressores chegaram em grande número, cercaram os edifícios religiosos e bloquearam as vias de acesso, obrigando os fiéis a sair à força e a serem levados para a mata. A ação ocorreu durante as celebrações religiosas e, até ao momento, não foi reivindicada oficialmente, nem são conhecidos pedidos de resgate.

Nessa mesma manhã, havia sido confirmada a libertação do padre Bobbo Paschal, pároco da igreja de Santo Stefano, na área do governo local de Kagarko, que fora sequestrado na noite de 17 de novembro passado na residência paroquial. O padre foi libertado no sábado, 17 de janeiro, após dois meses de cativeiro, conforme comunicado pela arquidiocese de Kaduna. Durante o assalto, os bandidos mataram o irmão do religioso.

A região, considerada estratégica porque se situa ao longo de uma faixa de transição entre o norte, de maioria muçulmana, e o sul, de predominância cristã, tem sido frequentemente atingida por grupos criminosos e milícias armadas que operam aproveitando-se da fraca presença do Estado nas zonas rurais.

Mas os sequestros e ataques contra comunidades religiosas e cristãs inserem-se num quadro mais amplo de insegurança que atravessa o país. De acordo com o último relatório da Portas Abertas (Open Doors), a Nigéria continua a ser o epicentro mundial da violência contra os cristãos: em 2025, 3.490 pessoas foram mortas por motivos relacionados com a  fé, o que representa cerca de 70% do total global e coloca o país na lista dos que apresentam um nível “extremo” de perseguição.

E, particularmente nos últimos meses, multiplicaram-se os sequestros de padres, fiéis e estudantes cristãos, como o assalto a uma escola católica no estado de Níger, com mais de 300 alunos e professores sequestrados, ocorrido em novembro passado [ver 7Margens].

Os dados são também consistentes com as conclusões do último Relatório da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, publicado em outubro, em que se identifica este país de África como um dos mais perigosos do planeta para o clero e os líderes religiosos.

Uma investigação da Conferência Episcopal Católica da Nigéria, divulgada em dezembro do ano passado, e citada pela Fundação AIS, documenta situações de rapto em pelo menos 41 das 59 dioceses e arquidioceses católicas do país.

De acordo com o documento, referente ao período entre 2015 e 2025, dos 212 padres raptados e posteriormente sequestrados, 183 foram libertados ou escaparam, 12 foram assassinados e três morreram mais tarde em resultado de traumas e ferimentos sofridos durante o cativeiro.

Atualmente, e com a libertação do Padre Bobbo, pelo menos três padres permanecem em cativeiro: John Bako Shekwolo, Emmanuel Ezema e Joseph Igweagu. O relatório confirma também que pelo menos seis religiosos foram raptados mais de uma vez, o que evidencia a vulnerabilidade persistente em que se encontra o clero.

No entanto, o número real de vítimas de violência é certamente superior, alerta a AIS, que registou, de forma independente, casos isolados de rapto durante os últimos anos em, pelo menos, outras cinco dioceses não abrangidas pelo estudo. Além disso, o relatório não inclui incidentes envolvendo ordens religiosas e congregações.

O impacto desta violência tem sido devastador para as comunidades cristãs locais, diz a fundação pontifícia. “Aldeias inteiras foram deslocadas, paróquias abandonadas e a vida pastoral severamente perturbada em vastas áreas do país. Só na Diocese de Minna, por exemplo, mais de 90 igrejas foram forçadas a fechar devido à persistente atividade terrorista e à insegurança crónica na região”.

Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

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