‘Gente da casa’ é o mais recente romance de Abdulrazak Gurnah, o primeiro escrito desde que ganhou o Nobel da Literatura, em 2021, e a ação volta a ser na Tanzânia natal. A viver na Grã-Bretanha há mais de meio século, Gurnah não escreve na língua materna, o suaíli, mas sim em inglês, e explica porquê: “O escritor tem uma relação íntima com a língua. Não se trata apenas de fluência. Pode ser que a pessoa, se também fala outra língua, descubra que se sente mais à vontade a escrever nela. Esta é uma das explicações para eu escrever em inglês. Simplesmente sinto-me mais confortável nesse idioma. Nem sempre é uma escolha. É algo mais. Uma espécie de relação com a língua que surge intuitivamente. Outra razão, claro, é que uma boa parte das minhas leituras na vida adulta foi em inglês. E escrever e ler estão interligados. Assim, escreve-se no contexto de um diálogo que se está a ter com outros textos que se leu ou que os nossos leitores leram. E no final de contas, acho que é simplesmente por causa desta ideia de me sentir confortável com uma língua. O inglês é uma língua na qual a minha mente consegue expressar-se em liberdade”.

Gurnah esteve em Braga para participar num festival literário. Depois, foi a Lisboa para falar do novo livro. Contou como foi a sua educação em Zanzibar, de onde fugiu com a família em 1968, quando uma revolução na ilha, já então parte da Tanzânia, ameaçou a população de origem árabe, como ele, cujo pai era um comerciante do Iémen. “Até por volta dos 13 ou 14 anos, todo o ensino era em suaíli. E depois, quando se ia para o secundário, de repente o ensino passava a ser todo em inglês. Portanto, uma transição bastante difícil, na verdade. Nasci em 1948. Cresci e estudei em Zanzibar durante o período em que ainda éramos uma colónia britânica. Os professores do ensino secundário eram, na sua maioria, europeus. Eram britânicos, por vezes rodesianos ou sul-africanos. Mas nos primeiros anos da escola, todos eram zanzibarianos. Alguns deles nem sequer falavam inglês. Assim, imagino que tenha sido uma espécie de solução imposta por essas limitações que estes professores enfrentavam ao lecionar. E depois, no liceu, era o contrário. A maioria dos nossos professores não falava suaíli. Só falavam inglês. Portanto, tínhamos de aprender muito, muito rápido, no mínimo para conseguir fazer os trabalhos. Para alguns alunos este foi um obstáculo muito difícil. Não que não fossem inteligentes o suficiente, mas era preciso aprender outro idioma, sem grande preparação. O inglês que aprendi na escola, mesmo no secundário, era apenas para me conseguir desenrascar em determinadas áreas”, diz este romancista, que se formou em Inglaterra, foi lá professor de literatura, mais tarde ensinou numa universidade na Nigéria, e agora leciona nos Emirados Árabes Unidos.

Antes dos britânicos, Zanzibar foi governada por Omã. E antes dos omanitas, durante dois séculos, foi dominada pelos portugueses, presentes na costa oriental de África desde a viagem de Vasco da Gama a caminho da Índia, em 1498. “Só descobri recentemente porque é que Portugal é ‘Ureno’ em suaíli. Vem da palavra reino. Presumo que quando os portugueses chegaram, se apresentaram como vindos do reino de Portugal. Assim, a palavra manteve-se: ‘Ureno’. Também há palavras que ficaram, por exemplo, o dinheiro é ‘pesa’. A palavra para mesa é ‘meza’. Há também as lendas que as pessoas contam sobre a presença dos portugueses aqui e ali. Portanto, mesmo sem se estudar história, há uma consciência de que os portugueses estiveram ali. E, claro, há, na costa, no Quénia, aquele forte em Mombaça, o Fort Jesus, que todos sabem ter sido construído pelos portugueses. Zanzibar, como nação, antes de se tornar parte da Tanzânia em 1964, era duas ilhas principais, Ungunja e Pemba. Em Pemba, as touradas sobreviveram”, explica o Nobel.

Nos livros, Gurnah revela muito sobre esta parte de África banhada pelo Oceano Índico, muito sobre colonialismo, sobre turbulência política. É uma região rica em material para um romancista, e o escritor sublinha que “não só é rica, como, pensando na literatura africana, não é uma área muito explorada na ficção. Certamente, quando eu próprio era estudante de literatura, em Inglaterra, a minha especialização, ao iniciar os meus estudos de pós-graduação, foi a literatura africana, e as pessoas presumiam que a ficção representativa de África era, de um modo geral, o que vinha da África Ocidental. E muito pouco se sabia ou se escrevia sobre a nossa parte do mundo. De certo modo, tal devia-se a uma espécie de autossuficiência da região. Grande parte da escrita ainda é feita em suaíli. E é importante o facto de que historicamente tudo remonta há muito tempo, às relações entre os países do Oceano Índico, desde toda a costa de África, passando pela Arábia do Sul, o Golfo Pérsico, a Índia e mais além. Uma das coisas mais interessantes para mim, quando comecei a escrever, foi perceber que este é um mundo sobre o qual não se escreveu, pelo menos não em inglês. E, por isso, como escritor, foi muito tentador dizer: ‘Vamos…’ Além disso, a história do encontro entre a Europa e estas partes do mundo, está em grande parte documentada, mas o que se sabe é, na sua maioria, o que foi escrito por europeus. E isso não conta a história completa. Conta apenas um lado da história. Portanto, há outro motivo para escrever: dizer que isso não está completo, eis aqui uma outra forma de encarar estes acontecimentos”.

O cosmopolitismo da África Oriental, onde os europeus chegaram e encontraram árabes e indianos a comerciar, é, diz Gurnah, muito antigo: “os omanitas não chegaram de forma significativa, em termos de domínio, até ao século XVIII. Entretanto, a mesquita mais antiga encontrada naquela costa data do século IX. Assim, já havia quase mil anos de islão quando os omanitas chegaram. A presença destes outros povos vindos da Somália, da Arábia, da Índia ou da China é uma história fascinante. Os navios do almirante Zheng He chegaram até à África Oriental, e ainda hoje não é de estranhar que esteja a passear pela praia e encontre fragmentos de cerâmica que só podem vir da China. Mas o mais importante sobre estas relações entre a costa oriental africana e outros povos do Índico é o comércio. Esta transmissão de comércio e, presumivelmente, também de cultura, culinária, religião e língua, ocorre há muito tempo”.

Gurnah fala também do comércio de homens e mulheres, que ao contrário do que acontecia na África Ocidental, não se destinava às Américas: “sobretudo durante os séculos XVIII e XIX na costa oriental de África assistiu-se a um comércio em grande escala de escravos, não só para o mundo árabe, mas também para as ilhas do Índico. As ilhas Maurício e Reunião eram, em grande parte, desabitadas. E primeiro os franceses e depois os britânicos, quando decidiram usá-las para plantações, tiveram de trazer mão de obra. Assim, as ilhas tornaram-se também o destino destas pessoas escravizadas que acabavam por vir da costa de África ou de Madagáscar. E houve gente também levada para a África do Sul. Nas plantações no Natal, a população local, os sul-africanos, recusou-se a fazer este trabalho. Eram, na verdade, guerreiros. Não se queriam envolver com o cultivo da cana-de-açúcar. Por isso, tiveram de trazer mão de obra de outros lugares, de outras partes de África. E também gente originária da Índia após a abolição da escravatura, razão pela qual existe uma população indiana tão grande no Natal. Nos movimentos de populações, a escravatura foi apenas uma parte”.

De novo, o tema da língua. Numa Tanzânia, que foi colónia alemã antes de ser inglesa, e um Zanzibar que funcionam quase como dois países, apesar de serem uma federação, o suaíli cresce. “Milhões e milhões de falantes, e está a espalhar-se mais. A sua casa, claro, é o litoral, porque é isso que significa. Suaíli vem da palavra árabe para ‘litoral’, mas agora é falado no coração de África, até na República Democrática do Congo. Até na Zâmbia, no Malawi, ou no sentido norte, no sul da Somália. Na Tanzânia, o primeiro presidente, Julius Nyerere, há muitos anos, convenceu a nação a fazer do suaíli a língua nacional. Portanto, no parlamento, é esta a língua. Nas escolas, é a língua principal. Nos jornais também, etc. Portanto, toda a gente fala suaíli na Tanzânia, mesmo que não seja a sua língua materna. Porque, claro, todos os pequenos grupos têm as próprias línguas. A ideia era que o suaíli fosse a língua unificadora para todos. Toda a gente tem de falar. Claro que, como acabei de dizer, o suaíli também é falado em vários outros países, mas não é a língua nacional. O Quénia, creio, tem tanto o inglês como o suaíli como línguas oficiais. Portanto, o suaíli está a sobreviver. Está a sobreviver não só porque é uma língua necessária para a comunicação entre estas pessoas, mas porque a rádio, a TV e os jornais são em suaíli, e não em inglês. A sua expansão está a fortalecer-se cada vez mais”, afirma o Nobel que conta nos seus romances histórias desta África banhada pelo Índico, histórias quase sempre de migrações e de refugiados, de busca de identidade. Além de ‘Gente da casa’, as obras de Gurnah publicadas em português são ‘Paraíso’, ‘O desertor’, ‘Junto ao mar’ e ‘Vidas seguintes’.

Texto: Leonídio Paulo Ferreira, jornalista do DN

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