Em entrevista à Fátima Missionária on line, o superior provincial do Instituto Missionário da Consolata faz um balanço do primeiro ano de mandato, às portas do Capítulo provincial.
Em entrevista à Fátima Missionária on line, o superior provincial do Instituto Missionário da Consolata faz um balanço do primeiro ano de mandato, às portas do Capítulo provincial. Fátima Missionária (FM): Está a cumprir o primeiro ano de mandato. Já contactou com as comunidades dos missionários da Consolata. Que observou?
Norberto Louro (NR): Observei uma realidade nova para mim, quanto à realidade da missão na Europa. O meu campo de missão foi sempre noutras latitudes. Procurei mais observar do que agir, inteirar-me do que é a missão na Europa. antigamente missionário era aquele que partia. a Europa mandava missionários, mantimentos, não era território de missão. agora está um pouco mudado. a missão é ir e vir.
a missão na Europa é uma realidade urgente. Há bolsas de paganismo, de afrouxamento da fé a todos os níveis, há situações de missão no verdadeiro aspecto da proclamação da mensagem. Não ouviram, não vivem a mensagem. Há situações de extrema pobreza, de miséria. E são mais evidentes, porque convivem com situações de opulência, com toneladas de lixo que noutros locais seriam a solução. Tenho que me convencer que a Europa é território de missão. Já não há territórios de não missão.
Senti-me deslocado porque tive de observar toda uma pujança de vida missionária que há aqui na Europa, seja a nível de iniciativas, seja a nível de entidades de Igreja, até de entidades paralelas ou fora da Igreja, grupos, movimentos, instituições, voluntariado que parte um pouco de todos os lados. Tive de me inteirar desta realidade. Deu-me grande alegria, porque há uma pujança de sensibilidades e actividade missionária inclusive na generosidade, em tempos de dificuldade.
Pude observar que estamos numa carestia grande de vocações, mas vemos surgir outro tipo de vocações. Há 50 instituições que mandam voluntários para os países de língua oficial portuguesa (PaLOP) e para África. é uma realidade bonita. Senti-me deslocado, porque não me era habitual esta realidade. Tive que observar, estudar. ainda não cheguei ao fim. Tive que observar para não falar de graça ou chegar a um discurso negativo de “não há nada” e inserir-me aqui com as experiências que fiz fora da Europa e de Portugal. Tive que esquecer o que fiz fora da Europa e tenho que montar aqui um esquema novo. Senti-me pequenino e a sofrer para criar uma programação nova, um projecto novo juntamente com os missionários com quem trabalho. Não estamos aqui à espera de partir em missão nem para instalar um projecto de outras latitudes. é diferente. Somos missionários aqui e temos que amar esta Europa.
Demorou algum tempo. ajudado por confrades que conhecem esta realidade, vou tentando avançar. Observei como trabalham outros institutos missionários, as iniciativas que fazem, já dominam a situação e os métodos. Trinta e dois anos fora daqui! é um período que ainda está a decorrer. admira-nos que pessoas vindas de outras culturas tenham tantas dificuldades. Parece-nos que fomos para África e não sentimos tantas dificuldades. Considerávamo-nos os missionários, í­amos missionar, evangelizar, muitas vezes com os nossos métodos de cá. Transplantávamos uma Igreja. agora, vejo que não posso transplantar a Igreja que ajudei a crescer na África. Tive e tenho que renascer. Esse renascimento é doloroso, porque quero fazer e não posso.
FM: Que sinais de esperança encontrou ao entrar nesta realidade?
NL: Claro que tenho agora uma visão muito mais optimista do que quando cheguei, quando tudo era difícil para mim. Estava aqui com o corpo, mas não com o coração. Já vejo com mais optimismo todas as iniciativas a nível da missão, o trabalho em rede, em grupo, em que já não é só um instituto que é protagonista. a Igreja já não é detentora do monopólio da missão. Há gente que, não estando inserida na Igreja, faz trabalhos óptimos. Uma boa parte da sociedade civil está interessada nestes projectos. Isto faz-nos lembrar que a missão é de Deus. Não é monopólio da Igreja católica.
FM: Que futuro para esta Europa?
NL: Face à crise de vocações consagradas, o futuro passa pelos leigos, voluntários e, com menos intensidade talvez, pelos movimentos eclesiais. Há toda uma força nova que criará a consciência de um maior empenho na missão.
FM: Em breve vai realizar-se o Capítulo da província portuguesa. Que temas serão analisados?
NL: O Capítulo provincial (26 a 30 de Junho) vai deixar-se influenciar pelo Capítulo geral que pediu uma atenção especial para os novos areópagos, que estão elencados na encí­clica ” a Missão do Redentor”. O diálogo com a sociedade civil, entrar em relação com todas as forças mesmo que não pertençam directamente à Igreja, dialogar com elas, o campo dos jovens, os meios de comunicação social, o diálogo inter-religioso, o campo das migrações.
No Capítulo anterior alargámos o âmbito do nosso carisma às pobrezas urbanas, aos não cristãos, aos serviços qualificados às Igrejas, às minorias étnicas. agora abrimos as portas ao diálogo com toda a sociedade, para procurar reconduzir esta sociedade ao plano inicial de Deus, à missão de Deus. a missão não é nossa. é de Deus para toda a humanidade. Vamos tentar impregnar estas realidades com o Evangelho, dizer-lhes que estão no caminho da missão de Deus na medida em que trabalham para o bem do homem, para a justiça, para a paz.
Outra coisa importante e que vai de encontro ao envelhecimento dos missionários é que a missão não é um serviço. é vida, é testemunho. Há situações em que o missionário não pode pregar e depende da intensidade, da profundidade da sua vida. a província portuguesa está envelhecida. Neste momento é formada preponderantemente por missionários portugueses. apesar disso, é internacional e inter-cultural. Tem um grupo de missionários de outras latitudes. Recebemos agora dois jovens que vêm de outras culturas. Não é negativo que venham de outras culturas. Nós também fomos para outras culturas. Temos cinco seminários teológicos e estão cheios, não só de europeus.
Estamos a viver uma nova organização: a realidade continental. Em todos os países do mesmo continente respira-se mais ou menos os mesmos problemas.
FM: Que frutos destas reuniões continentais?
NL: Serviram para destruir o isolamento. Cada região fazia por si, não havia conhecimento recí­proco.começaram a surgir os cursos de animadores, de formadores dos seminários para criar linhas de acção comuns e partilhadas.como fruto desta visão continental nasceu uma sensibilidade de economia e de comunhão. a partilha não é só de bens espirituais e de missão, mas também de bens materiais para a missão.
Nasceu no nosso continente europeu uma sensibilidade grande de acolhimento dos emigrantes. Tem havido iniciativas de acolhimento e defesa dos imigrantes a nível continental. Em Portugal, por exemplo, iniciámos o trabalho no bairro do Zambujal.
FM: Que projectos para o futuro, para a província portuguesa?
NL: Os projectos de futuro têm que ser proporcionais ao que podemos fazer. Não nos iludimos com grandes projectos porque não temos grandes forças físicas. Daremos prioridade à pessoa, atenção aos que aqui trabalham, à comunidade. a nível da acção, temos a animação missionária da Igreja local, das paróquias. Temos o acompanhamento vocacional dos jovens que nos batem à porta. Escolhemos a abertura do Zambujal e os meios de comunicação social, dado que podem chegar onde nós não podemos ir e falar numa linguagem nova e actualizada. Sempre com uma grande atenção aos jovens. Temos que fazer um projecto juvenil a nível da província portuguesa, integrado num projecto europeu.
FM: Um dos projectos é o centro de espiritualidade em Águas Santas…
NL: O centro de espiritualidade de Águas Santas visa o campo da promoção e acompanhamento vocacional. Há muitos centros de espiritualidade. Nós queremos pôr o acento na espiritualidade missionaria. é no campo do acompanhamento das pessoas que nos batem à porta, na formação dos grupos que connosco trabalham na animação missionaria. Queremos envolvê-los, dar conteíºdos a estas pessoas que estão sempre a reclamar iniciativas a nível de exercí­cios espirituais, de congressos e de formação catequética.
FM: E para quando a entrada em funcionamento?
NL: Quando falámos neste centro, dissemos que neste triénio querí­amos pô-lo a funcionar. até 2008.começamos pelas estruturas físicas, que não são o mais importante.começámos a preparar o centro. Já temos equipa. Esperamos a vinda de uma pessoa, que já me garantiram. Quando vier, far-se-á um programa para o centro.
FM: é um centro só para os grupos ligados aos missionários da Consolata ou também para outros?
NL: Para grupos catequéticos que nos batem à porta. Águas Santas é um lugar ideal, porque há uma vida pujante, famí­lias com dois e três filhos. é verdade que há outros centros. O nosso será de espiritualidade missionária. Vamos lançar propostas, dizer que estamos aqui. O centro vai acolher casais, grupos.
Há uma grande procura do espiritual, uma procura de gente que acolha, que dê respostas aos problemas existenciais. Os centros de espiritualidade são mais para gente adulta. Está a aumentar o níºmero de vocações de licenciados que têm de ter um tratamento diferente do seminário, um acompanhamento personalizado. Dizemos a essas pessoas: Vinde, ficai e vede, para que tenham possibilidade de encontrar um lugar para reflectir com pessoas maduras, jovens e menos jovens. Há esta necessidade. a vocação não nasce da teoria; nasce da experiência, de viver um tempo de experiência missionária, de contacto com a realidade missionária. Tentaremos indicar para cada um, aquilo que podem fazer do ponto de vista da missão e encontrar resposta para os seus anseios.

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