«Temos refugiados de tipo político, gente que foge da guerra e dos conflitos, ou que vem da américa Central, que foge de uma violência generalizada, e outra que migra por motivos económicos»
«Temos refugiados de tipo político, gente que foge da guerra e dos conflitos, ou que vem da américa Central, que foge de uma violência generalizada, e outra que migra por motivos económicos»José Martins Fernandes, missionário da Consolata, está em Toronto, no Canadá, há seis anos. Depois das experiências em Portugal, Brasil e África do Sul, partiu à descoberta de uma realidade pastoral completamente diferente, marcada pelas diferenças culturais, onde a prioridade é acolher e integrar. Pragmático, alerta para a necessidade de novas formas de evangelização na Igreja, mais atentas aos anseios e sonhos das comunidadesFaça-nos um retrato da sua paróquia. a paróquia de Santo andré, na arquidiocese de Toronto, tem 50 anos e chegou a ser de periferia. atualmente, é a mais misturada culturalmente da arquidiocese, pois tem gente de toda a proveniência. Há um núcleo originário de ascendência italiana, outros descendentes dos colonos ingleses, e depois é gente nova: migrantes e refugiados do Médio Oriente. Ultimamente, o grande fluxo foi da Síria, antes foi do Iraque. Há ainda muitos filipinos, do Bangladesh, Paquistão e Sri Lanka. De África também temos bastantes pessoas, sendo os dois maiores grupos da Nigéria e do Gana. Tanto assim que a nossa igreja serve de ponto de referência para a comunidade ganesa de Toronto. Eles usam a igreja e as infraestruturas para se reunirem e para as suas celebrações. aos domingos temos sete missas e por ali passam entre 3. 200 a 3. 500 pessoas. Há uma boa participação, porque não é como uma paróquia tradicional da missão, mas de contexto completamente urbano. Procuramos dar expressão à riqueza cultural que ali existe, e em vários momentos do ano, mesmo que a Missa seja em inglês, temos sempre a oração dos fiéis ou o terço em várias línguas. Tentamos integrar as pessoas sem separações.como conseguem lidar com todas essas diferenças culturais? a arquidiocese de Toronto adotou um pouco a linha do Pierre Trudeau, que via a sociedade canadiana como um mosaico, em que cada um mantém a sua identidade, mas estando junto com os outros, cria uma sociedade nova, diversa, multifacetada e também com mais possibilidades. assim, nas 225 paróquias da arquidiocese, são celebradas missas em 32 línguas, a cada domingo. O que tem vantagens, mas também pode ter desvantagens e desafios, porque pode tornar-se difícil a integração a nível cultural, de valores, pois estes grupos trazem o seu passado, a sua identidade, e também os seus anseios. E muitos pretendem mantê-los tal e qual. Isso obriga-vos a um tipo diferente de missão? Sim, um dos grandes desafios que se nos colocam é esse acolhimento novo a essa massa humana de migrantes e refugiados, e ajudá-los a integrar-sena sociedade e a melhorar as suas condições de vida. Temos refugiados de tipo político, gente que foge da guerra e dos conflitos, ou que vem da américa Central, que foge de uma violência generalizada, e outra que migra por motivos económicos. a paróquia tem um grupo específico para apoiar essas pessoas.como é uma sociedade muito organizada e não se quer que as pessoas cheguem e depois não tenham condições para viver uma vida digna, há um processo clarificação, que começa muito antes das pessoas chegarem. Portanto, quando entram, entram legais, com apoio assegurado. Neste momento, a arquidiocese de Toronto é a segunda entidade, depois do Estado, que mais acolhe refugiados e migrantes. Que responsabilidade tem esse grupo no processo de acolhimento?O grupo de acolhimento tem a obrigação de recolher fundos para apoiar essas famílias, porque só se pode decidir receber uma família quando se tem uma certa quantia de dinheiro, definida pelo Estado. Ou seja, quando a paróquia atinge o montante exigido, declara-se disponível para acolher uma família. O grupo vai receber a família ao aeroporto, leva-a à casa arrendada previamente e disponibiliza-se a acompanhá-la no processo de legalização e obtenção de documentos. Disponibiliza-se ainda para encontrar trabalho para os elementos da família, pagar a renda da casa durante um ano, além de assegurar uma verba para alimentação e outras despesas correntes. Outro processo, é o chamado processo de acolhimento moral, em que uma família tem familiares ou amigos no Canadá, tem o dinheiro suficiente para migrar, mas como o Estado não autoriza que isso seja feito em nome individual, a Igreja entra como parceira no processo. O dinheiro é posto numa conta, para garantir que em caso de necessidade, essa verba pode ser utilizada. O Estado não comparticipa com nada?Não. Tem que ser a paróquia a assegurar as despesas durante pelo menos um ano. E acolhem só cristãos, ou também pessoas de outras religiões?Nós não sabemos qual a preferência religiosa de quem chega, porque ninguém nos diz. Há dois anos, por exemplo, apoiámos um jovem do Sudão que era muçulmano. E a questão religiosa confinou-se ao âmbito pessoal. Nem ele colocava questões, nem nós. Mas há pessoas muito sensíveis a esta questão. Uns acham que devíamos apoiar só os cristãos, outros acham que não, que todos são a imagem de Cristo. acha que esse modelo podia ser aplicado na Europa?Parte dele podia ser usado. Mas o problema na Europa é que se trata de uma emergência. Haveria que combater as causas que provocam estas migrações na origem. Os políticos não gostam de ouvir, mas há interesses em iniciar esses processos bélicos e conflituosos e não se fazem as contas às consequências. a questão do Iraque ou da Síria são paradigmáticas. Pelo que se depreende das suas palavras, existe da vossa parte uma grande preocupação em encarar o migrante e refugiado não de forma passiva, mas com intenção de o integrar e enriquecer as comunidades de acolhimento. Sim, mas claro que aí lutamos contra a ideia mais tradicional que é a evangelização numérica. Nós preocupamo-nos com o testemunho, com o serviço ao outro, com a sua dignidade enquanto pessoa. Creio que esse é o grande valor, sobretudo nestas sociedades desenvolvidas, porque parece que o cristianismo tem muita dificuldade em radicar-senuma sociedade desenvolvida, sobretudo nos nossos tempos. Enquanto uma sociedade é pobre, batizam-se multidões e multidões. Mas quando as pessoas atingem um certo bem-estar económico, parece que o cristianismo não tem capacidade de entrar. E essa não pode ser a verdade. Têm que haver outros modos de evangelização, ao nível do testemunho, do compreender as dinâmicas da sociedade e contribuir para essa sociedade. Ou seja, está a sugerir que o próprio sacerdócio também deve adotar uma nova forma de estar?Sem dúvida. Uma maior atenção aos anseios e aos sonhos dos grupos, das pessoas. Creio que aí a Igreja pode ser uma novidade, entrando na dinâmica da sociedade, naquilo que são os valores, o que conta, o que serve, o que é importante, o que tem futuro, e não apenas no usável. Nós estamos numa sociedade em que o que tem valor é o usa e deita fora, é o criar dinheiro para gastar dinheiro. E as pessoas, às vezes, precisam de ser ajudadas no processo de discernimento, de verem por onde passa a sua dimensão com Deus nesta realidade. Juntamente com isso, vem o grande desafio dos últimos tempos, que é o diálogo inter-religioso. O Papa Francisco tem insistido muito no diálogo inter-religioso. Mas o sucesso desse diálogo não pode esbarrar numa certa tendência para a intolerância manifestada por outras religiões? a nível oficial, parece que as coisas vão funcionando bem. ao nível das bases, é um desafio tremendo, em que os resultados não são ainda muito bons. Mas há que usar o que é possível, e antes do diálogo formal, de palavra, de partilha de vivência religiosa, apostar no diálogo da colaboração. E nós temos esse exemplo em Toronto, em que várias entidades religiosas colaboram e participam no mesmo projeto, sobretudo do tipo caritativo. Há que entrar nessa dinâmica, mesmo correndo o perigo de perder números.