Missionário encara com apreensão o futuro dos povos indígenas no Brasil, em particular as comunidades yanomami com quem trabalhou cerca de 50 anos. Está preocupado sobretudo com as invasões de garimpeiros e as políticas do governo
Missionário encara com apreensão o futuro dos povos indígenas no Brasil, em particular as comunidades yanomami com quem trabalhou cerca de 50 anos. Está preocupado sobretudo com as invasões de garimpeiros e as políticas do governo a esperança é um característica sempre presente nas palavras e pensamentos de um missionário. Carlo Zacquini não foge à regra, mas revela alguma ansiedade e apreensão em relação ao futuro dos povos indígenas do Brasil, nomeadamente em relação às comunidades yanomami, com quem trabalhou cerca de 50 anos, na Missão Catrimani, em plena selva amazónica, na região norte do país. Passou fome, privações e problemas de saúde, para estar ao lado deste povo e ajudá-lo a assegurar a criação de uma área de proteção. após anos de luta, este objetivo foi alcançado. Só que agora, com as novas políticas do governo de Jair Bolsonaro, voltaram as invasões e as preocupações. E nem os efeitos do Sínodo sobre a amazónia convocado pelo Papa Francisco deixam o missionário da Consolata totalmente descansado.com este governo, que não respeita os povos indígenas, já não sei se tenho esperança. Eles estão a viver uma situação terrível. Neste momento estima-se que há mais de 20 mil garimpeiros na área indígena yanomami [no estado de Roraima], a presença deles é ilegal, mas o Presidente limita-se a aconselhar aos invasores que não infrinjam a lei. E a FUNaI [Fundação Nacional do Índio] está praticamente inutilizada, confessa o irmão Zacquini, em declarações à Fátima Missionária. Natural de Vercelli, e agora com 82 anos, o missionário está na Consolata desde 1957. Teve o primeiro contacto com um grupo de indígenas yanomami isolados em maio de 1965. Três anos depois, passou a trabalhar no meio deles, numa pesquisa incessante para compreender a sua forma de estar. Ficou encantado com o modo como respeitam a sua mitologia. E ainda hoje se manifesta fascinado com a sua cultura. É fantástico como eles veem a natureza, porque para eles tudo na terra tem vida e tem alma, resume, com um brilho nos olhos. Inolvidável é também, na sua opinião, o facto de ter tido a possibilidade de trabalhar numa Missão, junto dos yanomami, que se pautou sempre por um modelo diferente, arrojado e inovador de evangelização, baseado no respeito pela tradição e cultura desse povo. Um arquétipo que terá despertado a atenção do Vaticano, pois só da Missão Catrimani foram convidados dois elementos (um missionário e uma missionária) da Consolata para auditores no Sínodo da amazónia. É um encorajamento muito grande, dá força à metodologia que começamos a utilizar, e é uma forma de se manifestar contra o proselitismo, adianta Zacquini. O missionário, que esteve em Portugal para participar num conjunto de conferências e encontros sobre a amazónia e os efeitos do encontro sinodal, destaca como positivo na luta indígena o terem conseguido criar organizações próprias que defendem e lutam pelos seus direitos. Para continuar a ajudar nesta difícil tarefa, Zacquini está a trabalhar na criação de um Centro de Documentação Indígena, em Boa Vista, capital de Roraima, que ficará acessível a todos os interessados.