Sacerdote colaborou na documentação preparatória do Sínodo da amazónia e reforça que os povos indígenas podem contribuir muito para o Estado brasileiro, se as suas vozes forem escutadas
Sacerdote colaborou na documentação preparatória do Sínodo da amazónia e reforça que os povos indígenas podem contribuir muito para o Estado brasileiro, se as suas vozes forem escutadasJustino Sarmento Rezende, o único padre indígena brasileiro que colaborou na documentação preparatória do Sínodo da amazónia, defende que o governo de Jair Bolsonaro deve apostar mais no diálogo com os povos indígenas e não estar apenas preocupado em impor os seus pensamentos. Os indígenas têm muito a contribuir com o Estado brasileiro porque são pessoas que conhecem a região onde moram. É preciso que o governo esteja disposto a dialogar com os indígenas e não somente em impor os seus pensamentos. O governo tem ouvido apenas aqueles que vão de acordo com os seus interesses, mas seria muito interessante que ele ouvisse os indígenas, afirma o sacerdote, citado pela agência Lusa. O Presidente do Brasil tem comparado os povos originários do país que moram dentro de reservas ambientais a animais de circo, um discurso que o religioso, de 58 anos, diz mostrar uma visão colonial que precisa ser ultrapassada. Quando se diz que o índio é como um selvagem expressa-se uma visão colonial. Hoje numa visão democrática diria que os indígenas são cidadãos do país, que precisam interagir de igual para igual com o Governo para buscar o bem comum. Já em relação às preocupações de Bolsonaro com a realização deste Sínodo, Rezende admite que o encontro promovido pelo Papa Francisco possa criar um certo desconforto, pois poderá contrariar interesses do setor agropecuário e militar. O Sínodo da amazónia trata de temas importantíssimos, como o território, os direitos dos povos indígenas, dos povos quilombolas [descendentes de negros que fugiram da escravidão], dos povos ribeirinhos, que querem ser respeitados.como a amazónia ainda não é muito explorada e nela se concentram muitas riquezas, o governo brasileiro e os de outros países [amazónicos] temem que a Igreja, uma instituição histórica, possa estar a posicionar-se contra os seus projetos governamentais, sublinha o sacerdote. Originário do povo tuyuka, Justino Rezende nasceu na região do alto Rio Negro, numa aldeia pertencente a cidade de São Gabriel da Cachoeira, localizada na fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela, no estado do amazonas. O agora sacerdote entrou em contacto com a Igreja Católica ainda jovem, na década de 1970, quando estudou num internato Salesiano, e a sua vocação teve de enfrentar resistências junto da hierarquia católica e da sua própria família.