a família Valente, o jovem Pedro e o padre Serafim já têm resposta dada ao convite da Igreja Católica ” deixar comodidades e ajudar os outros. Nos próximos meses, todos os cristãos são chamados à missão
a família Valente, o jovem Pedro e o padre Serafim já têm resposta dada ao convite da Igreja Católica ” deixar comodidades e ajudar os outros. Nos próximos meses, todos os cristãos são chamados à missãoOutubro começa com uma missão especial. E vai continuar assim até outubro de 2019. Essa missão particular consiste em correr riscos, agir, rumar às periferias, ter coragem, acolher os excluídos e estrangeiros e contactar com os mais pobres e marginalizados. Em suma: fazer sempre o bem, e em toda a parte. O convite a esta ação surge na sequência de um pedido do Papa Francisco, destinado à celebração de um mês missionário extraordinário, em outubro de 2019. Perante esta sugestão do Santo Padre, os bispos portugueses decidiram propor a celebração desse mês como uma etapa final de um ano missionário, que inicia em Portugal em outubro de 2018, prolongando-se até outubro de 2019. O que agora poderá assumir uma dimensão mais profunda para uns, já faz parte da vida de muitos portugueses, que procuraram deixar nos outros aquilo que têm de melhor. Serafim Marques, Pedro Nascimento e a família Valente são um exemplo disso. abdicaram de rotinas e confortos para rumar à incerteza e aí empenhar esforços em prol do bem comum. Serafim Marques, 94 anos, sacerdote missionário da Consolata, considera que a proposta do mês missionário extraordinário parte de um Papa extraordinário e fora de série que está jogando fogo missionário. as palavras do sacerdote, natural de Santa Catarina da Serra, Leiria, dão conta dos seus 54 anos de vida passados no Brasil a educar e a espalhar a palavra de Deus. Há jovens que vão passar um mês das suas férias nas missões de África. Isto vai abrindo o coração do jovem ao mundo. É muito importante e fruto do incentivo do Papa. Este é o Papa para o mundo de hoje, frisou o missionário. Pedro Nascimento, 29 anos, é apenas um dos muitos jovens portugueses que encarna o exemplo do religioso. O jovem, natural de Portalegre, esteve em missão em Carapira, no norte de Moçambique, em 2015 e em 2017, por um período de cerca de 30 dias cada, através dos Missionários Combonianos. aí viveu momentos de muita alegria e confraternização. Visitou doentes, idosos e hospitais, onde se deparou com cenários em que foi claro que as pessoas carecem de condições que não existem, que há dificuldades nos hospitais, desvio de medicamentos e um sofrimento que causa mal-estar em quem observa. a vontade de ainda dar mais de si aos outros, de uma forma mais prolongada, levou-o a deixar o seu emprego para partir em missão, por um período mínimo de dois anos. Deixei de exercer [advocacia] a 31 de maio, altura em que me despedi do escritório onde trabalhava para começar a preparação imediata para a partida para a Etiópia, referiu o jovem em declarações à Fátima Missionária, adiantando que deverá partir antes do fim do ano. Chegada do continente africano está a família Valente, residente no Furadouro, Ovar. Cláudia e Rui, de 46 e 45 anos, respetivamente, rumaram com os seus quatro filhos até ao Centro de Promoção Humana do Guiúa, em Inhambane, Moçambique, onde estiveram todo o mês de agosto. Os quatro irmãos – João, Marta, Miguel e Pedro – de 17, 14, 12 e 10 anos, procuraram dar o melhor de si, e a tenra idade não foi um entrave. a família Valente organizou atividades nas escolinhas do pré-escolar, iniciativas desportivas e didáticas, dinamizou aulas de informática para adultos, ajudou os estudantes na biblioteca com os trabalhos de casa, colaborou na manutenção das infraestruturas da missão, envolveu-se na catequese, visitou doentes, ajudou na animação das eucaristias e levou novas formas de entretenimento. Os miúdos brincaram com as outras crianças, levaram novos jogos, como voleibol e o basquetebol, construíram um cesto para conseguirem jogar, e integraram-se nas brincadeiras deles, recorda Cláudia, destacando algumas das mais-valias desta experiência. Convivemos, passámos tempo com as pessoas da comunidade, trocámos experiências e dificuldades. Descobrimos que, com a atitude correta, pudemos fazer muito mais do que inicialmente achámos, destaca. Se para uns as malas da missão já estão desfeitas, para outros é altura de começar a pensar nelas novamente. Mas aquilo que se leva, vai muito para além de vestuário ou artigos de higiene. Procura-se também levar conhecimento sobre o território para onde se vai passar a viver. É isso que Pedro se encontra a fazer. Enquanto o dia da partida não chega, o jovem dedica-se ao aprofundamento da língua e ao estudo sobre o país e a cultura com que irá lidar nos próximos anos. Estudo sobre as missões combonianas e o que têm feito, através de testemunhos e livros. Procuro saber a história da Etiópia, a sua cultura e a própria história da Igreja no país, relatou o advogado, acrescentando que quando chegar ao seu destino, cerca de quatro ou cinco meses serão destinados à aprendizagem da língua amárica,a principal língua da Etiópia. as idades de Pedro e dos quatro irmãos são idênticas às dos adolescentes e jovens com quem Serafim Marques partilhou a vida. Dediquei-me sempre muito à juventude. Tive sempre gente que me deu a mão e é por isso que eu faço o mesmo. E o mais que eu puder ainda. Se fosse recomeçar a vida ia ser padre novamente. Mas a começar mais cedo e a dedicar-me ainda mais aos jovens. Eu disse que ia fazer pelos jovens o que fizeram por mim, conta o missionário com 75 anos de profissão religiosa e 49 anos de sacerdócio. a sua formação e as dezenas de anos dedicados aos jovens, enquanto missionário da Consolata e irmão marista, fazem com que Serafim detenha uma particular sensibilidade em relação aos mais novos. Na vida é preciso usar muito mais o estímulo do que a crítica, porque a gente, de facto, muitas vezes, faz o contrário. O estímulo anima e dá força. a crítica arrasa. Um jovem precisa muito mais de uma mão do que de uma palmada. O jovem é muito sensível na adolescência e na juventude. Tem de ser tratado com muita delicadeza, calma e paciência, porque é muito difícil ser jovem hoje em dia, aponta o missionário. Os seus 94 anos não constituem um obstáculo à continuação da missão, na qual sempre se empenhou. Dediquei-me sempre aos jovens de corpo e alma e procurei sempre animá-los e incentivá-los. Valorizar o esforço, por pequeno que seja. Essa foi a minha vida até hoje. ainda hoje, o que puder fazer pelos jovens eu faço. Pelos jovens dou a vida. a cada jovem que encontro procuro dar-lhe a mão. Se a gente lhes dá uma mão, eles mudam de vida. Se eles tivessem quem os ajudasse fariam menos asneiras. Venceriam melhor. E o jovem é o futuro da sociedade. Merece todo o carinho, esforço e compreensão, apela o religioso. Foi exatamente a pensar no futuro da sociedade que Pedro trocou o emprego pela missão. a decisão obrigou o jovem a um discernimento grande, com algumas dificuldades e dúvidas. a incerteza em relação à capacidade de arranjar novamente um emprego, após o período de missão, ocupava os seus pensamentos, mas uma vez ultrapassada essa luta interior, familiares e amigos demonstram apoio, aceitação e alegria pela sua decisão. Para a Etiópia, Pedro afirma que partirá de coração aberto, rumo a um diálogo intercultural e intergeracional e aberto para novas vivências. De facto, são as realidades encontradas no terreno que acabam por impressionar os que se envolvem com a população local, conforme relata Cláudia Valente. Chocou-nos o estado da educação: turmas de 60 alunos, uns sentados nas carteiras e os restantes no chão, alunos com 12 e 13 anos que não sabem ler, fazer contas, e manter uma conversa em português. a educação é o pilar de uma nação e em Moçambique este pilar não existe, o que compromete o presente e o futuro deste país, lamentou a missionária leiga, frisando que os fracos cuidados de saúde também deixaram a família chocada. Numa tentativa de atenuar as dificuldades dos mais novos, a família Valente recorreu ao lúdico para levar à aprendizagem. Para além dos jogos de bola, começámos a introduzir atividades mais didáticas, como puzzles. a curiosidade deles foi muito grande como as suas dificuldades, pois crianças entre os 10 e os 12 anos não conseguiam fazer puzzles simples de seis peças, ou jogos com o abecedário ou números. O interesse deles era grande e todos os dias apareciam para brincar e começaram a preferir jogos a bolas. No final era já vê-los a fazer puzzles de 100 peças e grandes construções de legos, lembra a missionária. No terreno, a família Valente encontrou uma Igreja viva, e desta experiência, a missionária espera que resultem muitos e bons frutos nas vidas dos seus filhos. Estamos convictos que sim, pois já estão a pensar na próxima missão, conta Cláudia. O desejo de Pedro e dos quatro irmãos de retornar à missão pode traduzir uma das lições de vida do padre Serafim: Convenci-me que o segredo da felicidade é fazer os outros felizes. O convite à missão está lançado. O tempo está a contar.

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