Passaram 50 anos da Carta Fraterna que Eurico Dias Nogueira, primeiro bispo de Vila Cabral (atual Lichinga), no norte de Moçambique, escreveu aos muçulmanos da sua diocese a propósito de cinquentenário das aparições de Fátima , em setembro de 1966
Passaram 50 anos da Carta Fraterna que Eurico Dias Nogueira, primeiro bispo de Vila Cabral (atual Lichinga), no norte de Moçambique, escreveu aos muçulmanos da sua diocese a propósito de cinquentenário das aparições de Fátima , em setembro de 1966 Escrita em português e em ciyao, dirigida ao povo ayao, maioritariamente islâmico, esta carta, pela sua originalidade e abertura, teve um impacto que ultrapassou rapidamente os limites do Niassa.com uma linguagem simples e grande espírito ecuménico, aquele que viria mais tarde a ser arcebispo de Braga, começou por apresentar os pontos de contacto entre o Evangelho e o alcorão, entre católicos e muçulmanos: () Todos creem num Deus único, criador do Céu e da Terra, que há de no fim dos tempos julgar os homens, para os premiar ou castigar. Todos aceitam as normas de moral como expressão da vontade divina, e consequentemente obrigando os homens a pautar por elas a sua conduta. Todos veem na oração o meio natural de nos dirigirmos a Deus e na esmola, no jejum, no sacrifício, na resignação, elementos poderosos de ascese ou perfeição espiritual e atos que lhe são agradáveis, merecedores de recompensa. Convicto de que a figura de Maria, Mãe de Jesus, é um ponto de encontro entre cristãos e muçulmanos, na segunda parte da carta – Mãe de Jesus no alcorão -, citou as páginas do livro sagrado do Islamismo, dedicadas a Nossa Senhora: o seu nascimento, a conceção virginal de Jesus, anunciado pelo anjo vindo da parte de Deus. Esta Mulher santa, que os muçulmanos respeitam e veneram e os cristãos amam e chamam de Mãe, recordou na terceira parte da carta, apareceu no dia 13 de maio de 1917 a três crianças, próximo de Fátima. O bispo fez uma breve história das aparições e apresentou a mensagem de Fátima, sintetizada em duas palavras: penitência e oração. Nestas duas atitudes – escreveu – estão as alavancas, está o segredo da santificação de todos os homens, sejam cristãos, muçulmanos ou de qualquer outra religião. Falou em seguida da celebração jubilar do cinquentenário das aparições que estava a ter inicio em Fátima, no Niassa e no mundo, convidando para a festa os muçulmanos da sua diocese. Terminou a Carta Fraterna com estas palavras: É um Bispo, um sacerdote de Cristo quem vos falou por meio desta carta fraterna e amiga. Mas não o fiz para pedir a vossa conversão ao Cristianismo. Peço-vos sim que sejais, constantemente fiéis devotos, verdadeiros homens de oração, dóceis às inspirações de Deus e que mantenhais o vosso respeito, devoção e amor por Maria, a Mãe de Jesus. E peço-vos ainda que vejais sempre nos outros homens, designadamente nos cristãos, verdadeiros irmãos por serem filhos do mesmo Deus e todos destinados pelo Senhor à felicidade do paraíso: esse Céu onde há lugar para todos os homens de boa vontade, isto é, aqueles que souberam ser fiéis à sua consciência esclarecida. ali cessam as diferenças que os separaram na vida. E fica por toda a eternidade aquilo que a todos nos une, por ser essencial a todos os homens: a nossa comum filiação divina e o nosso idêntico destino no seio de Deus. a Carta teve ampla circulação internacional e Eurico Dias Nogueira cimentou a amizade e a estima com os muçulmanos. Não havia visita pastoral ou celebração em que o bispo participasse onde os muçulmanos não marcassem presença. Em 1972, foi transferido para angola. a sua partida deixou triste também aquela comunidade religiosa. Em 15 de maio de 1972, os chefes muçulmanos do Niassa, em carta dirigida ao Papa Paulo VI, pediam que o bispo continuasse na diocese, e se não pudesse continuar, que mandasse um bispo como ele. Este ecumenismo prático com os muçulmanos do Niassa foi cultivado pelos Missionários da Consolata desde o início, de modo particular pelo seu pioneiro, o padre Pedro Calandri. Ele sempre soube suscitar em todos este espírito de respeito e manteve sempre com os ayao uma grande e frutuosa aproximação e amizade. Os missionários entravam nas mesquitas e os mwalimo, responsáveis religiosos islâmicos, também iam às igrejas. Rezava-se ao mesmo Deus, criava-se simpatia, união e amizade. a boa relação entre muçulmanos e cristãos no Niassa, que perdura até hoje, é uma das marcas de qualidade da evangelização dos Missionários da Consolata. apesar de muito pequenas, as comunidades cristãs entre o povo ayao do norte do Niassa são uma presença de Cristo e da sua Igreja. apesar do contexto islâmico dificilmente se deixar permear pelo cristianismo ou por qualquer influência cultural externa, constata-se tolerância e colaboração da parte dos muçulmanos em relação aos católicos e este é o milagre de uma evangelização integradora e a grande lição da Carta fraterna aos muçulmanos.