Como podem os irmãos dar prioridade a tudo o resto, até mesmo às atividades recreativas e desportivas, secundarizando as necessidades da mãe?
Como podem os irmãos dar prioridade a tudo o resto, até mesmo às atividades recreativas e desportivas, secundarizando as necessidades da mãe?após o falecimento do seu marido, há dois anos, Dulce tem sofrido uma degradação crescente do seu estado de saúde. aos 83 anos, sentia estar a concluir o seu papel na vida. O último sinal da sua debilidade foi o abandono da cozinha solidária que ajudara a criar e aonde todos os dias acolhia e servia as várias dezenas de pessoas que ali recorriam, recebendo em troca o seu carinho e respeito. Também declinou os passeios de fim de dia, não só por ser difícil movimentar-se, mas sobretudo por não querer ser um fardo para quem lhe assegurava cuidados e companhia: a sua filha Luzia, nos fins de tarde e fins de semana e a Dora durante a semana. Das dores de Dulce, a maior, ela não se permite verbalizar a ninguém: o Zé e o Pedro, mesmo vivendo ali ao lado, não passam nem uma tarde consigo – visitam a mãe de fugida e de longe a longe. – Têm muitos afazeres, os meus filhos – diz Dulce para si mesma, a tentar convencer-se de que esse é o motivo de tal saudade. Luzia percebe o sofrimento da mãe.como podem os irmãos dar prioridade a tudo o resto, até mesmo às atividades recreativas e desportivas, secundarizando as necessidades da mãe? E as dificuldades dela própria, tentando conciliar todas as exigências da sua vida? Sente-se exausta, correndo entre a intensa vida profissional, a vida familiar e o apoio à mãe. Já fora assim na doença do pai, com a justificação de que ela é a que tem jeito para prestar tal apoio. Dulce ia-se apercebendo destes dilemas de Luzia. Sentia-se um peso mas reconhecia que precisava dela ao seu lado. Via-a cansada, a entristecer. Tomou uma decisão: ainda era mãe dos três filhos e havia ainda uma lição a transmitir-lhes. Convocou-os para almoço em família. Mais diretiva do que era seu hábito, disse-lhes:- Chamei-os hoje aos três porque vocês são os meus mais queridos. Estou a precisar do vosso apoio. Primeiro pensei que eu era apenas um peso. Depois percebi que quero aproveitar a vida. Tenho um pedido a fazer. Sei que a Luzia está muito cansada. Não aguenta continuar a cuidar de mim, sozinha. Somos uma família e precisamos cuidar uns dos outros. Se todos colaborarmos, nada será peso demasiado grande para ninguém. Estes são os valores que o pai e eu vos transmitimos e sei que vocês também acreditam neles. Pedro e Zé, eu preciso de vocês e a Luzia também. Eu preciso de ti, Zé! Eu preciso de ti, Pedro!Quando eu for embora com o pai, quero contar-lhe que deixei três filhos atentos que se apoiam uns aos outros. É o maior presente que lhe posso entregar. Luzia não segurava as lágrimas. Pedro e Zé olhavam o chão e a mãe, emocionados e envergonhados. Não havia nada a comentar. Era isto mesmo!Dulce continuou:- Pedi à Dora para fazer um quadro com a distribuição dos dias em que cada um de vocês me fará companhia. Podem trocar, mas quero-vos a todos, porque sei que podem. Vou gostar tanto de estar perto de cada um de vocês… Há tanta coisa por conversar! É que eu preciso tanto de ti, Pedro! E de ti, Zé! E de ti, Luzia!Ninguém se atreveu a falar. Estava tudo dito, tocando no fundo de cada um, no cantinho onde os laços se formam e se agigantam. Por isso, provocou a mudança que repôs o equilíbrio e a unidade – e a vida ganhou outras liberdades!