Do ponto de vista da fé, há muita gente que «pensa» que Deus vai de férias, sobretudo os mais jovens, porque afinal a catequese ou formação juvenil paroquial só regressam em setembro. Mas Ele não vai, porque isso seria ir contra a sua identidade
Do ponto de vista da fé, há muita gente que «pensa» que Deus vai de férias, sobretudo os mais jovens, porque afinal a catequese ou formação juvenil paroquial só regressam em setembro. Mas Ele não vai, porque isso seria ir contra a sua identidadeFérias: palavra mágica que desperta em nós sentimentos de euforia, boa disposição e vontade de fazer mil e uma coisas que nos divertem, fazendo uma merecida pausa no quotidiano, marcado pelo estudo e pelo trabalho. Claro, para quem o tem e para quem pode estudar. as férias não são só uma oportunidade para relaxarmos e nos divertirmos, são também tempo propício para uma reflexão sobre o modo como estamos vivendo este dom e desafio chamado vida. Não falo de se fazer um retiro (se bem que não seja má ideia), bem pelo contrário; falo sim do termos consciência do estarmos vivos e do modo como vivemos o tempo e as nossas relações com o próximo. Por vezes, vivemos como se não houvesse amanhã, como se a vida não acabasse um dia, ou olhamos para trás e vemos que o tempo parece fugir-nos das mãos, que ele passou sem que tivéssemos feito caso ou reparado e enchem-nos os remorsos de tempo e oportunidades perdidas. Se calhar, nem as férias aproveitamos bem, a todos os níveis. Do ponto de vista da fé, há muita gente que pensa que Deus vai de férias, sobretudo os mais jovens, porque afinal a catequese ou formação juvenil paroquial só regressam em setembro. Mas Ele não vai, porque isso seria ir contra a sua identidade: o amor nunca se afasta de nós, porque isso seria autoanular-se. Somos nós que, por vezes, nos afastamos dele.como tal, podemos e devemos aproveitar também o tempo das férias para dedicarmos uma parte do nosso tempo e atenção a uma avaliação séria e profunda da nossa vida. Pensar, por exemplo, no sentido que lhe damos, no valor que temos para quem nos acompanha e vice-versa, no contributo que somos para a nossa família em particular e para a sociedade em geral, entre outras. Todos somos portadores de vida e de Deus em nós, uma vida que não é só nossa e que deve falar de Deus aos outros. Parece que, olhando à nossa volta, a sociedade se vai desumanizando cada vez mais, trocando gradualmente mais experiências pessoais por experiências virtuais, trocando as pessoas por meros números, trocando o divino que há em nós pelo ego que nos cega e engana, fazendo-nos escravos do supérfluo, do imediato e transitivo. Somos seres capazes de muitos e valiosos feitos, somos corresponsáveis com Deus na criação e no embelezamento deste mundo, só que nem sempre queremos sê-lo ou simplesmente nos esquecemos dessa nossa capacidade.como tal, devemos investir na nossa capacidade de sonhar, não só com um mundo mais desenvolvido tecnologicamente, que inclui controlar tudo ou quase tudo à distância de um clique no telemóvel, mas sobretudo sonhar com um mundo mais humano, mais fraterno e solidário. E as férias não devem ser só de sonho, mas também tempo para sonhar e, porque não, atualizar os nossos sonhos, adequando-os à realidade, uma realidade que cada vez mais exige de nós compromisso e ação. Mas compromisso para quando e até quando? Esta é uma palavra que mete medo a muita gente, mesmo a muitos jovens, os quais preferem descartá-la, ignorá-la ou pô-la de lado, vivendo a vida de forma descomprometida. Mas a liberdade, como sabemos, não consiste no fazer o que queremos, mas sim no saber usá-la para fazermos parte do bem comum, do ser-se livre para optar pelo amor, pelo serviço, pela defesa e promoção da dignidade.como tal, compromisso e liberdade podem e devem ser duas faces da mesma moeda, tal como Jesus as usou para revolucionar o modo como as pessoas se relacionam com Deus e entre si. Por isso, devemos sonhar mas com os pés bem assentes na terra, com capacidade crítica que inclui a determinação em sermos a mudança que queremos ver no mundo em geral e nos outros em particular. Sim, porque é fácil sonhar e esperar que as coisas aconteçam; difícil é sim entregar a nossa vida a Deus no serviço ao outro. O mundo precisa de jovens que sonhem e recriem os seus sonhos, não com teorias utópicas mas com ações concretas de entrega, disponibilidade, partilha, serviço e humildade. Só assim as coisas mudarão para melhor e nos tornaremos construtores do Reino de Deus já neste nosso mundo que tanto precisa dele e de cada um de nós. Estás disposto a este compromisso?