Um dia, o senhor Gastão adoeceu. Doença grave. Depois de intenso tratamento, conseguiu recuperar. Mesmo sabendo que a recuperação não seria por muito tempo, voltou à sua atividade de sempre
Um dia, o senhor Gastão adoeceu. Doença grave. Depois de intenso tratamento, conseguiu recuperar. Mesmo sabendo que a recuperação não seria por muito tempo, voltou à sua atividade de sempreChamava-se Gastão: senhor Gastão. Debaixo deste simples senhor Gastão escondia-se o título de comendador com que foi agraciado pelo presidente do governo; a patente de coronel da carreira militar; gestor de uma prestigiada escola privada que ajudou a fundar; presidente de comissões e grupos de direção para que era convidado. Nenhum destes títulos impressionava o senhor Gastão – nem quem dele se aproximava e convivia porque nem sabiam que ele os tinha. O senhor Gastão era conhecido por ser um homem bom. E nesta designação cabiam a generosidade e competência na resolução dos problemas que lhe apresentavam; a coragem para criar soluções novas; a importância que atribuía a cada pessoa independentemente do seu estatuto; participação ativa sempre que era preciso lançar mãos ao trabalho; a alegria de viver e as gargalhadas com que a expressava; o empenho colocado nos encontros de amigos e colaboradores que gostava de promover; a facilidade com que pedia ajuda e aceitava contributos; a sua confiança nas pessoas e a certeza de que, em conjunto, é possível construir um mundo melhor; a convicção de que a sua vida era um presente de Deus para ser usado a criar felicidade. Um dia, o senhor Gastão adoeceu. Doença grave. Depois de intenso tratamento, conseguiu recuperar. Mesmo sabendo que a recuperação não seria por muito tempo, voltou à sua atividade de sempre. Da doença, nunca o ouvíamos falar. Estou novo, dizia, ocultando possíveis preocupações. Cinco anos mais tarde, aos 76 anos, a doença voltou a manifestar-se, anunciando um final próximo. Fui visitá-lo a casa. Estava muito frágil, acamado. Mas feliz! Na conversa, só quis saber de mim, dos projetos em que estava envolvida, da minha família e dos amigos comuns. Relembrou e agradeceu os momentos e projetos que partilhámos. E eu, sem jeito, só pude agradecer a viagem em que ele me envolveu, no barco que ele tão bem pilotava. O abraço daquele dia, foi o abraço da despedida. a fragilidade do seu braço contrastava com a grandiosidade do seu olhar. O olhar de um homem bom que me deixou o coração cheio. Foi a última vez que o vi. Depois, só o encontro para o adeus. ali, na homenagem final, estavam a esposa que amava, os cinco filhos e os netos que preenchiam e encantavam o seu mundo familiar; os alunos e professores da escola que criara e que conhecia pelo nome; as crianças e jovens da instituição de solidariedade que ajudou a fundar e que corriam para ele como se de um pai se tratasse; os colegas de projetos, os muitos amigos, individualidades civis, militares e religiosas, e muitos, muitos outros que o quiseram homenagear. a sua despedida foi com cânticos, como só podia ser. Cânticos muitas vezes por ele cantados, afirmando certezas de um Deus sempre presente e amoroso. Foi uma festa para um homem bom que, em liberdade, fez uma escolha de lugar: na linha da frente, quando se tratava de construir bocadinhos para um mundo melhor. ali, todos lhe devíamos e dissemos um muito obrigado! Não ao comendador nem ao coronel, nem ao gestor nem ao presidente disto ou daquilo. agradecíamos ao homem grande, porque homem bom que usou a sua história para melhorar a história de muitos mais.