O mandamento do amor que nos deu Cristo é como as medalhas: têm um verso e um reverso, é a coisa mais sublime, e por vezes é um frete pesado
O mandamento do amor que nos deu Cristo é como as medalhas: têm um verso e um reverso, é a coisa mais sublime, e por vezes é um frete pesadoUma das maiores santas de todos os tempos, Santa Teresinha do Menino Jesus, a um certo momento da sua vida sentiu-se num beco sem saída. Considerando os grandes santos da História da Igreja, não conseguia reconhecer-se em nenhum dos membros da Igreja descritos por São Paulo na segunda leitura. Mas durante essa leitura compreendeu que a Igreja tinha um coração ardente de amor que a todos os membros dava a força de concretizar a sua vocação. Então exclamou com a maior alegria duma alma arrebatada: Ó Jesus, meu amor! Encontrei finalmente a minha vocação. No coração da Igreja minha Mãe, eu serei o amor, e com o amor eu serei tudo! (Manuscritos autobiográficos, 229). O amor é a sumidade de tudo o que de melhor pode produzir o coração humano, e que no coração humano pode Deus produzir. De facto, sem perdão não pode haver amor, mas sem amor não há vida. O remate sublime de São Paulo nessa segunda leitura de hoje é: agora, subsistem três coisas: a fé, a esperança e a caridade (o amor); mas a caridade é a maior de todas. De Deus diz São João: Deus é amor (1 João 4,8). E o amor de Deus para connosco é tão grande que Ele entregou o seu Filho Unigénito (à morte) para que todo o que nele acredita não se perca, mas seja por ele salvo (João 3,16), o Deus que não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por nós todos (Romanos 8,33). O mandamento do amor que nos deu Cristo é como as medalhas: têm um verso e um reverso, é a coisa mais sublime, e por vezes é um frete pesado. até mesmo o profeta Jeremias nos adverte: Nada mais enganador que o coração, tantas vezes perverso: quem o pode conhecer? (Jer17,9). amando-nos até ao extremo do amor, Jesus entrou para dentro de nós pelo seu Espírito, para viver dentro de nós. Para nós, amar quer dizer deixar que o outro entre para dentro de nós e aí permaneça – o que, num sentido, significa renunciarmos às nossas defesas. Tornarmo-nos vulneráveis, sairmos do refúgio da nossa interioridade pessoal, da nossa independência para aceitarmos aquilo que porventura nos possa prejudicar como pessoas livres. Foi o amor que condenou Jesus à morte. Por isso é absolutamente natural que Deus seja um, mas em três pessoas, pois assim o amor pode circular duma para a outra. Se Deus fosse uma só pessoa, o seu amor ficaria fechado dentro dessa pessoa numa atitude personalista. amando em extremo, Jesus aceitou-nos dentro de si como somos, expôs-se a aceitar as feridas que a nossa imperfeição, e mesmo a nossa maldade, acarretariam ao seu amor. À maneira duma mãe que, ao aceitar tornar-se mãe, se expõe mesmo à morte pelo que concebeu e com amor dá à luz. Por isso se diz que Mãe é sinónimo de amor, mas o amor faz rima com dor; isto é, o amor inclui a dor causada pelo amor que se dá ao outro. E amar quer dizer nunca mais ser livre, mas ver a sua liberdade condicionada pelas exigências do amor do outro: perder a liberdade para ser livre para amar. Foi assim que o Filho Unigénito de Deus, ao aceitar tornar-se homem para salvar o homem, perdeu a sua invulnerabilidade divina, condenou-se a falhar, a perder-se a si próprio (Cf. Gálatas 2,22). Por isso ele podia ensinar por experiência: Não há maior amor do que dar a vida pela pessoa amada. E tudo isto livremente, por amor mesmo sem retribuição, como disse Jesus: a minha vida ninguém me a tira, eu é que a dou livremente (João 10,18). O que faz com que o amor seja a coisa mais sublime é que ele é a paga de si próprio: o prémio do amor é amar. Para o amante, amar é já ser amado (Cf. S. Bernardo, Sermão 84,4-6).