Os atentados que vitimaram anteontem mais de uma centena de pessoas em Paris implicam a necessidade de uma solidariedade mais consistente entre os países. a concertação, ou a falta dela, entre os europeus é exemplo pouco edificante
Os atentados que vitimaram anteontem mais de uma centena de pessoas em Paris implicam a necessidade de uma solidariedade mais consistente entre os países. a concertação, ou a falta dela, entre os europeus é exemplo pouco edificanteSabia que há uma instituição que avalia os países mais solidários do mundo? Trata-se da fundação britânica Charities aid Foundation. Reúne dados compilados anualmente pela Gallup, uma empresa norte-americana, cujo relatório foi agora publicado. World Giving Index 2015 revela o índice dos níveis de solidariedade dos cidadãos de 145 países do mundo que assenta em três categorias, como explica o jornal The Guardian: a ajuda a cidadãos estrangeiros, a doação de dinheiro para fins de caridade e o tempo despendido em ações de voluntariado. Neste documento podemos verificar que Portugal está no 82º lugar, ou seja, muito perto do meio da tabela. O nosso país está atrás de países europeus como a Holanda (7º), Irlanda (9º), Reino Unido (6º), alemanha (20º), Espanha (58º) e Itália (72º). a França, que subiu do 90º lugar para a 74a posição, ultrapassando Portugal.

a posição portuguesa será boa ou não? Porventura nem uma coisa, nem outra, mas deveras preocupante, quando verificamos que o país mais solidário do mundo é o Myanmar, um país asiático que alcançou a independência do Reino Unido em 1948. Em relação ao apoio a cidadãos estrangeiros, os portugueses encontram-se nos primeiros 70 lugares do ranking: na 66a posição, mais especificamente. Porém, quanto à percentagem de cidadãos nacionais que doam dinheiro para fins de caridade, Portugal fica apenas na 85a posição. No que concerne à proporção de portugueses que fazem voluntariado os resultados são ainda mais negativos: o país fica no 91º lugar, entre os 145 países estudados. Para surpresa de muitos anotamos que no ranking dos 10 primeiros desta lista apenas encontramos três países europeus.

Se olharmos com alguma atenção para a atual situação da Europa, no que diz respeito ao acolhimento a cidadãos estrangeiros, constatamos uma desunião que prejudica não só os países da União, como aqueles que desejam ser acolhidos. É verdade que as guerras alimentadas em diferentes países obrigaram os seus cidadãos a procurarem outras paragens. Estamos perante uma situação invulgar, mas também não é menos verdade que há anos que tal acontece.
Que políticas é que a União Europeia, no seu conjunto, introduziu para minorar as consequências dos conflitos que alguns dos seus membros e os Estados Unidos fizeram no Médio Oriente, especialmente no Iraque? Não devemos esquecer que após os países ocidentais terem derrubado o governo do Iraque, a entrega do poder neste país não foi devidamente acautelada e gerou um conflito interno que extravasou para outros países confinantes.

De momento assistimos ao descambar dos princípios que nortearam a formação da União Europeia, especialmente no que respeita à livre circulação de pessoas e bens, uma das maiores conquistas obtidas pela instituição. Erguem-se muros, constroem-se vedações de arame farpado, fecham-se fronteiras entre vários países, tudo para impedir a entrada de pessoas como nós que fogem da guerra e procuram viver em paz.
O ministro do Interior da alemanha (possivelmente o país que mais refugiados tem acolhido), Thomas de Maiziére afirmou ainda recentemente que para muitos países não acontece nada, os refugiados simplesmente passam ao largo deles. Já a chanceler alemã, angela Merkel, desafiou a União Europeia a mostrar solidariedade para com os refugiados, ultrapassando as atuais divergências, advertindo que será um falhanço se não o conseguir.
É este o retrato da solidariedade que temos na Europa e no Mundo. É tempo de quebrar barreiras entre países e povos, permitindo que haja liberdade, igualdade, fraternidade, mas sobretudo mais solidariedade entre todos. E não esqueçamos que essa solidariedade começa no coração de cada um de nós.