O dia 1 de Novembro de 1755 ficou gravado na História de Lisboa e do mundo pelo violento sismo, seguido de maremoto, que destruiu a cidade e fez milhares de vítimas.
O dia 1 de Novembro de 1755 ficou gravado na História de Lisboa e do mundo pelo violento sismo, seguido de maremoto, que destruiu a cidade e fez milhares de vítimas.
Passados 250 anos, é impossível não evocar um acontecimento que mudou o rosto e, pode-se dizer, a alma da capital portuguesa.
aos três abalos que se sucederam em menos de dez minutos seguiu-se um maremoto e um incêndio que se prolongou por cinco ou seis dias, com efeitos mais devastadores do que o próprio terramoto. apenas três dias após a catástrofe, o núncio Filippo acciaiuoli envia uma carta ao seu irmão, no Vaticano, da desolada terra que na passada sexta-feira era Lisboa.
Se os efeitos físicos do cataclismo atingiram quase toda a Europa, a discussão filosófica e intelectual que se seguiu teve consequências mais duradouras, envolvendo pensadores como Voltaire, que escreveu, sobre o tema, O Poema sobre o Desastre de Lisboa e Cândido ou o Optimismo, Rousseau, Ribeiro Sanches, e Kant.
Teologicamente discutia-se sobre a culpabilidade particular das vítimas, sobre as causas físicas e sobre a causa do mal moral. Deus, infinitamente bom, permite o mal por respeito à liberdade da sua criatura e, misteriosamente, sabe tirar dele o bem.
a Europa saía do seu comodismo e enfrentava a tragédia, o despertar de um sentimento de insegurança, como explica ao programa Ecclesia D. Manuel Clemente, especialista em História da Igreja: os filósofos fixavam o seu olhar sobre a incapacidade de fazer face a esta adversidade e, numa outra perspectiva, na esperança de mudança que eclodia desta catástrofe, que obrgiou a Europa a questionar-se sobre sistemas filosóficos assentes num optimismo demasiado ingénuo e mesmo sobre a bondade de Deus.
Voltaire contrasta a tragédia de Lisboa com a opinião optimista que vinha do início desse século, de que se vivia no melhor dos mundos possíveis, como defendia Leibniz. agora, põe-se em causa essa convicção e Voltaire escreve mesmo: Tudo estará bem, um dia: eis a nossa esperança; tudo está bem, hoje, eis a nossa ilusão.
Rousseau, por outro lado, defendia que era necessário voltar a um Estado natural do homem, pré-civilizacional, em que o homem, de algum modo, se resgatasse dos males que a civilização lhe tinha trazido, lembra D. Manuel Clemente.
Neste contexto, a Baixa Pombalina apresenta-se como um modelo da reconstrução iluminada, pretendendo ser a afirmação da capacidade racional do Homem contra a adversidade. as igrejas submeteram-se a este plano e foram edificadas em locais apropriados ao projecto geral da cidade e não necessariamente no mesmo local em que se encontravam antes. apesar de terem uma decoração mais ricas do que os outros urbanística, nenhuma das igrejas pombalinas tem torres…
D. Manuel Clemente lança um desafio ao olhar: a Lisboa que tinha sobrado da Idade Média era uma cidade de vielas, perpendiculares ao Tejo. Hoje temos um exemplo de uma cidade feita de novo sobre as ruínas da antiga.
Quando chegamos, agora, à Baixa pombalina, olhamos para as suas igrejas e reparamos que elas estão perfeitamente alinhadas com as novas ruas que se abriram – e não era ali que elas tinham estado antes. Todas elas foram construídas de novo, muitas delas foram do seu sítio original, e não se destacam muito do conjunto da arquitectura, assinala.
Para D. Manuel Clemente, há ainda um outro facto muito significativo: a Lisboa nova não tem uma Catedral nova nem um Palácio novo. Todas as grandes cidades do século XVIII tinham a sua Catedral nova, mas a Lisboa pombalina não a tem: o novo estilo de cidade nem é tão sacral, nem é tão régio como as outras cidades – é uma outra mentalidade, comercial, mercantil, burguesa, acrescenta.
Em memória das vítimas de então, e pensando em todas as vítimas de catástrofes naturais, o Cardeal-Patriarca de Lisboa endereçou uma carta ao Clero de Lisboa, propondo que nas Igrejas da Diocese, de modo particular nas da cidade, se evoque esta data em sentido de prece e de comunhão com todos os que sofrem. À Celebração da Missa, às 9h30m, hora do terramoto, pelo Cardeal-Patriarca nas Ruínas do Convento do Carmo, juntou-se o pedido de que os sinos das igrejas toquem a essa hora, exprimindo, com o seu som, a memória de toda uma Cidade.

Outras iniciativas
Lisboa antes do terramoto de 1755 e O Terramoto cultural Pombalino são os temas de duas conferências promovidas pelo Centro Cultural de Lisboa Pedro Hispano, a realizar dia 31 de Outubro e 2 de Novembro respectivamente e que terão como oradores Pedro Picoito e José Eduardo Franco.
No dia 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, nos 250 anos do terramoto, haverá na Igreja da Madalena, às 16 horas, um concerto e apresentação do restauro em curso na Igreja da Madalena. Três horas depois, na Igreja de S. Nicolau, D. Manuel Clemente, Bispo auxiliar de Lisboa celebrará a Eucaristia e haverá a apresentação da nova fase do restauro na Igreja de S. Nicolau.
No dia 2 de Novembro, Dia de Fiéis Defuntos, na Igreja da Encarnação haverá um concerto Requiem de Mozart. Dia 5 de Novembro, na Igreja da Conceição Velha haverá uma missa na inauguração do restauro da capela-mor da Igreja da Conceição Velha. Às 21h 30 do mesmo dia será a Inauguração do restauro da Basílica dos Mártires e apresentação da Missa inédita de Nossa Senhora dos Mártires, composta por João José Baldi, pela Capela de Santa Cruz (coro e orquestra).
O programa para assinalar os 250 anos da catástrofe inclui ainda iniciativas como o lançamento de livros, debates, colóquios, exposições, missas, visitas guiadas e ateliers dedicados às crianças, famílias e escolas, que se prolongam até ao próximo ano.

No Programa Ecclesia
No programa Ecclesia, D. Manuel Clemente recorda o terramoto de Lisboa, na rubrica em antena em cada quinta-feira O Passado do Presente. a partir do dia 3, próxima quinta-feira, e durante seis semanas, o Bispo auxiliar de Lisboa recorda a história, o que aconteceu há 250 anos e o modelo de construção de uma nova cidade adoptado. as consequências filosóficas do acontecimento e o novo enquadramento do elemento religioso, na sua definição territorial e vivencial são abordados com especial relevo.
agência Ecclesia (Octávio Carmo)

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