«Despedi-me do emprego, da família, dos amigos e arrisquei. Do que vi, do que experimentei, percebi que Deus me chamava à radicalidade, a viver como Jesus, e a ser no quotidiano «transparência» de Deus, como Jesus, para todos»
«Despedi-me do emprego, da família, dos amigos e arrisquei. Do que vi, do que experimentei, percebi que Deus me chamava à radicalidade, a viver como Jesus, e a ser no quotidiano «transparência» de Deus, como Jesus, para todos»Margarida Ribeirinha, 53 anos, é natural de Valongo, no distrito do Porto. Entrou para o Instituto das Irmãs de Santa Doroteia aos 28 anos, foi Mestre de Noviças e hoje, além de coordenadora da comunidade de terceira idade do Linhó é responsável pela Pastoral Juvenil Vocacional da Província Fátima Missionária Ser religiosa nos dias de hoje é um ato de coragem? Margarida Ribeirinha Ser religiosa nos dias de hoje, tal como nos de ontem, mais que um ato de coragem é um ato de amor. assumir viver a vocação religiosa nada tem, a meu ver, com a atitude meramente humana de coragem, pois se assim fosse estávamos a situar-nos apenas numa realização meramente humana. Na verdade, a escolha de ser religiosa ou consagrada tem a sua raiz numa outra dimensão que as pessoas e a juventude nos tempos de hoje parecem esquecer: a dimensão da escuta de Deus nas nossas vidas… Ele é quem tem a iniciativa. Escutar Deus no mais dentro do nosso ser aí onde só Ele pode entrar, tocar e provocar a nossa forma de viver e, se estivermos disponíveis, livres de coração, Ele nos chama a segui-Lo em radicalidade e a viver como Jesus. Deus, em Jesus, revela-se ao coração humano inquietando-o para ser mais, para dar tudo, para ser dom para todos, para ser serviço, para ser amor. Sim, ser consagrada/religiosa é assumir ser resposta de amor ao amor com que sou amada por Deus em Jesus Cristo. É seguir Jesus, aprender d’Ele o modo e a forma de amar. É desejar ser transparência d’Ele, é treinar o meu coração para crescer na vivência dos seus sentimentos, em todas as circunstâncias da minha vida e da vida do mundo. Ser consagrada/religiosa é ser uma resposta de amor ao amor de Deus por mim, revelado em Jesus e que superou/supera todos os amores humanos da minha vida. Ser consagrada/religiosa é optar e assumir, em liberdade, viver de e em paixão o chamamento de Jesus – Vem e segue-Me. Este seguimento pressupõe capacidade de opção, de entrega, de gozo, de sofrimento, de alegria, de comunhão, de viver e ser com outros (viver em comunidade). Seguir Jesus como consagrada é viver reconhecendo, com humildade, que é Deus quem me chama todos os dias. a mim, na minha frágil humanidade, compete colocar-me disponível, com o que sou e tenho de dom, para que Ele faça de mim o que quiser, deixando que Ele me transforme o coração, para que seja Ele a viver, cada vez mais em mim. Jesus chama-me no presente a viver e a gerar o futuro – o Reino de Deus.como consagrada sou chamada a ser sinal do Reino de Deus, neste presente que é o já, construindo com audácia o futuro que é o ainda não do Reino que Jesus veio inaugurar. FM Quando e como decidiu que queria seguir a vida religiosa? MR Desde criança sempre fui comprometida com a Igreja: catequese, catequista, grupo de jovens, animadora de grupo de jovens, movimento juvenil, juventude rebelde mas nunca me tinha colocado a questão da forma como poderia servir mais a Deus e à Igreja. Sempre pensei que a minha vocação fosse o que a sociedade pensa ser o mais comum – o casamento. Tive as experiências de namoro normais de adolescente e jovem até que assumi namorar a sério, ao ponto de pensar em casamento, tinha eu 25 anos. Na verdade, quando comecei a pensar em assumir o casamento algo em mim aconteceu: deixei de me sentir serena. Senti-me inquieta – penso que Deus me provocou a discernir se seria mesmo o casamento a minha vocação – depois de um tempo de paragem do namoro, a meu pedido, cheguei à conclusão que não me sentia chamada ao casamento. Pensei que a minha vocação seria o ficar solteira, comprometida com a Igreja e com a juventude. aí sim, sentia-me feliz. Mas aos 27 anos, a minha irmã mais nova (Paula), aluna da então chamada Escola de Educadoras Paula Frassinetti, desafiou-me a ir participar, com ela e outras alunas, num encontro de Fé e Cultura promovido pelos padres Jesuítas, em Coimbra. Fiquei alojada no noviciado das Irmãs Doroteias. Na primeira noite, Deus proporcionou que a irmã Diniz, diretora da Escola de Educadoras, estabelecesse connosco uma conversa amiga, próxima, simples, apaixonada; falou-nos de Santa Paula Frassinetti como apóstola da Juventude, do Carisma da Congregação e dei comigo a admirar aquela mulher que pensava Deus, a Igreja, a Juventude com uma paixão que me deixava perplexa. Hoje, esse momento faz-me lembrar os discípulos a caminho de Emaús – não nos ardia cá dentro o coração?. Foi assim que me senti, e que não queria sentir. Voltei para casa, com o coração a arder e inquieta. Há já muito tempo que me ardia o coração pelas coisas de Deus e por amor à Juventude, mas desde aquele encontro, nada estava como antes senti que tinha que ir ver (sou uma mulher de ciências, precisava ir, provar e ver). Necessitava fazer a experiência da radicalidade por Jesus. Despedi-me do emprego, da família, dos amigos e arrisquei. Do que vi, do que experimentei, percebi que Deus me chamava à radicalidade, a viver como Jesus, e a ser no quotidiano transparência de Deus, como Jesus, para todos, com preferência pelos jovens e pelos mais pobres. Já lá vão 25 anos de entrega apaixonada por Jesus, e n’Ele, com Ele e por Ele, a tantos que passam na minha vida-missão. FM O papel da mulher na Igreja Católica precisa de ser mais valorizado? MR O papel da mulher na Igreja Católica tem vindo a ser valorizado de uma forma lenta, mas a dar passos. O acesso à teologia por parte das mulheres veio trazer novidade à reflexão sobre Deus, à interpretação das Escrituras e à vida da Igreja. No entanto, nos círculos mais comuns da vivência da fé, as Igrejas locais, a mulher ainda se situa no patamar do fazer, dos serviços, são relativamente poucas as mulheres que são chamadas à reflexão teológica e eclesiológica, à interpretação das Escrituras, a dar o seu contributo na reflexão pastoral. O olhar feminino é complementar do olhar masculino sobre a vida, e a Igreja faz parte da nossa vida. Quanto mais nos abrirmos à complementaridade e a valorizarmos mais enriquecida a Igreja ficará. Todos seremos mais ricos, por isso Deus criou o homem e a mulher. a criação é pensada por Deus para a complementaridade. FM Nota diferenças entre as vocações de hoje e as de outros tempos? MR a vocação, o chamamento, neste caso à vida religiosa ou consagrada, sempre foi um mistério. Deus toma a iniciativa, a resposta depende do sujeito que escuta esse chamamento. Por isso, as vocações são de sempre e de cada tempo. De sempre pois a primazia é de Deus, que escolhe, chama, para enviar a uma missão. De cada tempo porque cada pessoa é do tempo em que vive, da cultura e da realidade em que cresce. Tendo em conta que Deus chama as pessoas concretas de cada época não me parece bom comparar as vocações de ontem e de hoje. Todo o vocacionado é chamado a incarnar Deus em cada tempo histórico, com as características específicas e os dons que Deus lhe dá para a realização da vocação. Importa em cada tempo assumir o chamamento, crescer na adesão a Jesus e realizar a missão para a qual cada um é chamado, e no tempo que é chamado. Deus continua a chamar homens e mulheres para ser, no mundo, expressão do seu amor em todas as realidades. O modo e a forma têm que ser sempre atualizados para o tempo da história que se vive, há que pensar que o tempo não para. as vocações de todos os tempos devem preocupar-se em responder à questão: que faria Jesus no nosso tempo? Que faria Jesus, se estivesse no meu lugar? Que faria Jesus? Para descobrir esta resposta, para cada época, para cada situação, o consagrado(a) deve viver em contacto diário com a Palavra de Deus para descobrir a vontade de Deus e o que Jesus faria no hoje da nossa história. O consagrado deverá assumir ser essa resposta com humildade e amor.