Manuel Clemente declarou-se «servidor» da diocese ontem durante a tomada de posse como patriarca de Lisboa. O ato que é certificado pela assinatura contempla a receção do báculo e o assento na cátedra simboliza a posse
Manuel Clemente declarou-se «servidor» da diocese ontem durante a tomada de posse como patriarca de Lisboa. O ato que é certificado pela assinatura contempla a receção do báculo e o assento na cátedra simboliza a posseFoi Cristo o primeiro a dar o exemplo de serviço ao outro. Em toda a sua vida temporal, mesmo sendo Deus, fez da passagem terrena um completo dar de si próprio àqueles que com Ele conviviam, não só os discípulos, mas todos os outros. Os santos que a Igreja elevou aos altares, para que os cristãos vissem neles as virtudes do amor, da verdade e da fé, deram a sua vida pelo amor ao próximo e a maior parte despiu-se do seu eu para se entregar aos outros. a Igreja tem inúmeros exemplos de bispos, sacerdotes e leigos, cujas vidas foram um seguimento fiel do espírito cristão, Cristo não tinha onde reclinar a cabeça ou seja: nada tinha de seu, embora tudo lhe pertencesse.

Francisco, o papa, tomou esse nome tendo em conta a vida de S. Francisco de assis, o santo da caridade, do amor às criaturas – é célebre a sua dedicação pelas aves – de uma completa entrega ao outro. O Papa, na cerimónia de lava-pés no período pascal deste ano, demonstrou a forma como entende o serviço ao outro, sem distinguir cor, raça ou credo. Ele próprio é o simbolismo do servidor – afinal o mesmo tipo de serviço que Madre Teresa de Calcutá prestava, escolhendo os desprotegidos como os primeiros a quem prestava serviço. São exemplos belos que devemos ter sempre presente no nosso dia a dia. Os cristãos, e mesmo os que não seguem o ideário de Cristo, têm aqui matéria para séria reflexão.

as palavras de Manuel Clemente, mas principalmente o exemplo dos santos e do atual papa, revelam a visão da Igreja que Cristo desejava: do amor ao próximo, como a nós mesmos. Há muita gente da Igreja acomodada, sentada na cátedra. Não é isso que desejamos, antes devem levantar-se do lugar para ir ao encontro do outro esteja ele onde estiver. Há muito tempo que notamos que alguns responsáveis da Igreja se esqueceram das obrigações que assumiram, também assinaram de livre vontade. É bom que não o esqueçam. a gestão das comunidades, das paróquias e da Igreja no seu todo, nunca foi tão importante como agora, mas em primeiro lugar devem estar ao serviço dos mais necessitados.

a hierarquia da Igreja, bispos e sacerdotes, tem que fazer as opções mais adequadas, tendo em conta o ideário cristão, mas sobretudo aqueles a quem pregam o evangelho. O papa Francisco logo após a eleição fez opções, desde o uso do anel, passando por outras coisas pessoais – até de vida – escolhendo a vivência com os outros e não o isolamento nos aposentos papais, pequenos aspetos simbólicos cujo significado deve ser analisado e seguido. O poder que o dinheiro permite, os lugares ocupados, não são impeditivos da livre partilha com o irmão, mas se tal não for feito dão um péssimo exemplo e não respeitam os seus compromissos enquanto homens de Deus.

Mas os leigos também têm obrigações. a partir do momento em que somos batizados e conscientes na fé, devemos dar testemunho daquilo em que acreditamos: o amor. O conceito do amor é tão vasto que daria para escrever montes de livros, mas sem a sua prática seriam inúteis, porque o verdadeiro amor é darmo-nos aos outros, com todas as consequências que daí possam derivar. Todos nós sentimos a crise económica e moral em que vivemos, mas há sempre outros que a vivem mais intensamente, com dificuldades que nós nem imaginamos. É para eles que nos devemos voltar e ajudar para que tenham uma réstia de esperança, se o fizermos estaremos a viver o evangelho que Cristo nos legou.