Portugal está em acelerado declí­nio demográfico. O número de nascimentos em 2012 foi o mais baixo dos últimos 60 anos e a incerteza do futuro está a deixar cada vez mais famílias órfãs de filhos. Mas ainda há casais a remar contra a maré
Portugal está em acelerado declí­nio demográfico. O número de nascimentos em 2012 foi o mais baixo dos últimos 60 anos e a incerteza do futuro está a deixar cada vez mais famílias órfãs de filhos. Mas ainda há casais a remar contra a maréOs cortes no aquecimento, nas saídas e na dieta alimentar já se fazem sentir em casa da família Santos, em Óbidos, mas até agora, apesar de se apresentar severa e impiedosa, a austeridade não conseguiu enfraquecer o aroma de felicidade, de esperança e de união, que se respira em cada divisão da moradia. Desde que haja roupa limpa, comida na mesa e saúde, já é suficiente, diz Sandra, 39 anos, enfermeira de profissão e mãe por vocação. Numa altura em que a Europa vive um dos piores momentos em matéria de natalidade, sobretudo nos países assolados pelos efeitos do garrote económico, Portugal incluído, começam a ser cada vez menos as famílias que arriscam ter um filho, quanto mais dois ou três. Pois bem, Paulo e Sandra Santos têm cinco e não se mostram nada arrependidos. É verdade que sentem o sufoco dos impostos a subir, que se têm visto obrigados a reajustamentos constantes do orçamento familiar, que deixaram de comer peixe com a frequência desejada e que já pensam em procurar emprego no estrangeiro. Mas se os convidassem a embarcar na máquina do tempo, voltavam a escolher exatamente o mesmo percurso. Ter estes filhos é a nossa maior bênção, afirma, olhos nos olhos, Paulo Santos, 46 anos, oficial da Força aérea Portuguesa. Emigrar para sobreviverO casal conheceu-se nas festas de verão de a-da-Gorda, Óbidos. após um namoro de nove meses, veio o casamento. antes do juramento de fidelidade, Paulo gracejava que um dia haviam de ter quatro filhos. Sonhava com uma família alargada, como as que via nos filmes, nos seus tempos de infância. a realidade superou a brincadeira. Sandra deu à luz por cinco vezes. Primeiro veio o Francisco (agora com 18 anos), depois a Maria (13), o Tomás (9), o andré (4) e a Constança, que tem apenas um ano. a nível familiar, a máquina está perfeitamente oleada. O dia começa às 06h30, com o despertar, e termina por volta das 21h00, depois do jantar, e de se trocarem impressões sobre as venturas e desventuras do quotidiano, sem a televisão a interferir nos diálogos. Há muita autonomia e, sempre que necessário, os mais velhos ajudam os mais novos. O problema maior, agora que a crise aperta, prende-se com as dificuldades orçamentais. O casal perdeu 35 por cento do rendimento em dois anos, fruto dos cortes na função pública, teve que abdicar do aquecimento central, suspender algumas atividades extracurriculares dos filhos, e pondera seriamente emigrar ou trocar a casa por um apartamento, para fazer face às despesas. Paulo, à semelhança do que acontece com muitos dos portugueses, sente uma enorme tristeza pelo estado a que chegou o país. Se nada se alterar não sabemos como vai ser, afirma o militar, lamentando a falta de apoios às famílias, sobretudo às mais numerosas. Não peço benefícios especiais, apenas que considerem o rendimento per capita’ para efeitos de imposto, em vez do atual sistema que se baseia nos rendimentos do casal. apesar das dificuldades, Paulo Santos mantém a opinião de que os filhos não são obstáculo à felicidade. No entanto, adverte que se não forem tomadas medidas urgentes há muita gente que gostava de ter filhos e acaba por não ter. Uma opção que vamos pagar muito caro nas futuras gerações.