Duas experiências de trabalho em carvoarias que dignificam quem o faz, apesar da sua dureza, numa ação cultural levada a cabo pelo Museu de arte Sacra e Etnologia
Duas experiências de trabalho em carvoarias que dignificam quem o faz, apesar da sua dureza, numa ação cultural levada a cabo pelo Museu de arte Sacra e EtnologiaNo Museu de arte Sacra e Etnologia, realizou-se no dia 5, pelas 21h30, uma mesa redonda sobre duas experiências de produção de carvão vegetal: uma na aldeia do Pilado (Marinha Grande) e outra em San Pedro (Costa do Marfim). a ação inseriu-se no âmbito da exposição fotográfica Damas de Carvão, que está patente ao público nesse mesmo museu. a realidade das carvoarias de Pilado foi apresentada por Paula Lemos, com base na sua experiência direta e na tese de mestrado em Estudos-Portugueses e Culturas Regionais, dirigida pelo sociólogo Moisés Espírito Santo. a realidade da Costa do Marfim foi apresentada pela fotojornalista e autora das fotografiasdaexposição, ana Paula Ribeiro, e pelo padre Luís Maurício Guevara, missionário da Consolata, que visitaram essas carvoarias no passado mês de julho. Moderou a mesa o diretor do museu, Gonçalo Cardoso. Paula Lemos expôs toda a dureza do trabalho das mulheres carvoeiras que na luta pela sobrevivência arriscam tudo, inclusive algumas multas, para levar a cabo esse trabalho, que para algumas delas é o único ganha-pão. Não são muitas as pessoas que ainda se dedicam a esse trabalho, na zona da Marinha Grande, mas essa produção de carvão vegetal, que por vezes envolve famílias inteiras, tem uma função económica, como forma de rendimento alternativo. Não deixa, porém, de ser feita com muito orgulho porque só nessa terra é que existe a produção. Paula Lemos realçou não só a dureza do trabalho, como também a luta para enfrentar alguns problemas com as autoridades policiais, uma vez que se trata de uma produção ilegal. acrescem ultimamente os problemas com algumas pessoas que se sentem incomodadas com o cheiro das carvoarias e que por isso vão denunciar as carvoeiras. apesar de se poder considerar que a mulher do Pilado é transmissora de um património cultural não indiferente, não há a nível autárquico uma proteção legal desta atividade. No que se refere às carvoeiras de San Pedro, na Costa do Marfim, ana Paula Ribeiro e padre Maurício Guevara realçaram primeiramente a dureza desse trabalho e os riscos que acarreta para a própria saúde das intervenientes. Também aqui, para a maioria delas, este trabalho é o único ganha-pão. acresce o longo percurso que têm que fazer, tantas vezes acompanhadas pelas crianças, para ir buscar a lenha com que produzem o carvão. Mas sublinharam sobretudo a alegria e a dignidade com que essas mulheres realizam esse trabalho. É uma honra para elas. É um trabalho com que se sentem dignificadas. Feito com o brilho nos olhos este serviço faz dessas mulheres verdadeiras damas, que deste modo intervêm também na frágil economia local. a mesa redonda serviu também para apresentar às duas dezenas de pessoas presentes o projeto dos Missionários da Consolata a favor da construção de Centros de alfabetização na Costa do Marfim, uma vez que, por razões de trabalho infantil, tantas crianças não conseguem frequentar a escola.